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ÍNDICE TEMÁTICO 
65
Como habitamos esse comum?
ano XXXII - Dezembro de 2020
158 páginas
capa: Nuno Ramos
  
 

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Resumo
Uma conversação em torno de psicanálise e cultura em tempos de banalidades e silenciamentos parte da transmutação da palavra democracia, que insiste em fazer nome a partir dos insultos. Em testemunho da experiência clínico-política vivida durante a pandemia de COVID-19, o escrito elabora figuras imaginativas da máscara, da janela e da casca para a transmissão do vírus do inconsciente.


Palavras-chave
Psicanálise, arte e política; democracia; elaboração imaginativa.


Autor(es)
Silvia Nogueira de Carvalho Carvalho
é psicóloga, analista institucional, psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é editora do jornal digital Boletim Online, professora no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma e co-coordenadora do Projeto de atendimento a médicos residentes Sedes-Amerusp. Integrante dos coletivos Escuta Sedes e troça coletiva?- psicanálise, arte e política.



Notas

Nota Escrito para o evento Psicanálise e Cultura em tempos de banalidades e silenciamentos, diálogo com o escritor Julián Fuks em laive realizada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae aos 26 de junho de 2020, em meio à pandemia da covid-19.

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Referências bibliográficas

1. A. Tabucchi, Requiem, uma alucinação, p. 10-11. Requiem, uma alucinação é a história escrita em português pelo italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), que precisava para ela de uma língua diferente, uma língua que fosse um lugar de afeto e reflexão. A personagem a quem Tabucchi chama "Eu" percorre uma Lisboa deserta e tórrida num domingo de julho, numa espécie de sonho no qual vai encontrar vivos e mortos no mesmo plano: pessoas, coisas e lugares que precisavam talvez de uma oração, que foi feita através de um romance. O livro me voltou às mãos a partir da interpelação do artigo que Julián Fuks acabara de escrever?- "Um país em estado de melancolia". Ao me lembrar do alterego melancólico de Tabucchi, a se encontrar com personagens solitárias com as quais estabelece pequenas cumplicidades, procuro pela cena com o pintor copiador que fala sobre o vírus do remorso, comparável ao herpes-zóster de Santo Antão. Mas eis que (re)encontro o diálogo entre o italiano e o bilheteiro coxo, mais afeito aos contágios desejantes. Em Portugal, bilheteiro se diz cauteleiro.

2. Cf. J. Rancière, "O dissenso", in: A. Novaes, Crise da razão, p. 367-382.

3. J. Rancière, O ódio à democracia, p. 8.

4. C. Veloso, laive de 07 de junho de 2020.

5.  J. Vertzman, A elasticidade da técnica em tempos de covid-19, vol. 3, 2 de maio de 2020.

6. S. Bleichmar, "Traumatismo: entre el estímulo e la excitación". Intercambio psicoanalítico, vol. ix, n. 1, 2020, p. 10-16.

7. Originalmente publicado no Diario Clarín de 25 de julho de 2001.

8. Cf. F. Urribarri. "Legado de André Green: recordar, elaborar, assumir". Jornal de Psicanálise.

9. Originalmente publicado em Psicanalistas pela democracia, 31 de maio de 2020.

10. César Lacerda, videoclipe oficial, 2020.

11. Cf. o memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do Coronavírus no Brasil: https://inumeraveis.com.br

12. G. Kilomba, "A máscara?- colonialismo, memória, trauma e descolonização", in Memórias da plantação?- episódios de racismo cotidiano, p. 33.

13. G. Kilomba, op. cit., p. 33.

14. No sentido de seu mais além, designado por Freud como declínio do complexo de Édipo (cf. G. Iannini, "Notícia bibliográfica de O declínio do Complexo de Édipo", in Neurose, psicose, perversão / Obras incompletas de Sigmund Freud, p. 267).

15. Cf. S. Nogueira de Carvalho, "1395 dias sem vermelho e depois". Boletim Online do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae n. 53, abr. 2020.

16.      Cf. S. Nogueira de Carvalho. "Entre a força e o sentido: arte e psicanálise diante da dor dos outros". Percurso 58: Interfaces da clínica, jun. 2017.

17. Alguém cantando longe daqui/ Alguém cantando longe, longe/Alguém cantando muito/ Alguém cantando bem/ Alguém cantando é bom de se ouvir/ Alguém cantando alguma canção/ A voz de alguém nessa imensidão/ A voz de alguém que canta/ A voz de um certo alguém/ Que canta como que pra ninguém/ A voz de alguém/ Quando vem do coração/ De quem mantém/ Toda a pureza/ Da natureza/ Onde não há pecado nem perdão. C. Veloso, Alguém cantando, 1977.

18.  J. Jardim; W. Carvalho. Janela da alma, 2001.

19. Cf. S. Nogueira de Carvalho, "José do Paraná". Boletim Online do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae n. 55, set. 2020.

20. G. Didi-Huberman. "Cascas". Serrote n. 13, p. 132.

21. Cf. N. Zaltzman, "Ficar sem cara. Narcisismo e Kulturarbeit".

22.  Para uma discussão bem informada acerca da submissão, do terror e da ilusão diante da natureza inédita do genocídio que desafiou a imaginação humana, ver R. Mezan, "Os que não foram heróis: sobre a submissão dos judeus ao terror nazista", in: Sociedade, cultura, psicanálise, a fim de pensar a suspensão da negação e da alienação que torna possíveis as rebeliões num mundo virado pelo avesso.

23. G. Didi-Huberman, op. cit., p. 111.

24. Cf. J. Fuks. "A rejeição mais coletiva da morte já registrada na história". Ecoa, Uol, 17 de abril de 2020.

25. G. Bachelard, A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade, p. 15.

26. A elaboração simbólica dos processos psíquicos desencadeados pelas situações traumatofílicas. Cf. D. Winnicott apud O. Souza, "As relações entre psicanálise e psicoterapia e a posição do analista", 





Abstract
A conversation around psychoanalysis and culture in times of banalities and silencing starts from the transmutation of the word democracy, which insists on making a name out of insults. In witness of the clinical-political experience lived during the COVID-19 pandemic, this writing works through imaginative figures of the mask, the window and the bark for the transmission of the virus of the unconscious.


Keywords
Psychoanalysis, art and politics; democracy; imaginative elaboration.

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 TEXTO

Máscaras, janelas, cascas

Masks, windows, peels
Silvia Nogueira de Carvalho Carvalho

[...] o senhor acredita na alma? É uma das poucas coisas em que acredito, disse eu, pelo menos agora, aqui neste jardim onde estamos a conversar, foi a minha alma que me proporcionou tudo isto, quer dizer, não sei bem se é a alma, talvez seja o Inconsciente, porque foi o meu Inconsciente que me trouxe até aqui. Alto lá, disse o Cauteleiro Coxo, o Inconsciente, o que é que isso quer dizer?, o Inconsciente pertence à burguesia vienense do princípio do século, aqui estamos em Portugal e o senhor é italiano, nós pertencemos ao Sul, à civilização greco-romana, não temos nada a ver com a Mitteleuropa, desculpe, nós temos a alma. É verdade, disse eu, eu tenho a alma, está certo, mas também tenho o Inconsciente, quer dizer, agora já tenho o Inconsciente, sabe, o Inconsciente apanha-se, é como uma doença, eu apanhei o vírus do Inconsciente, acontece[1].



Para falar de psicanálise e de cultura, nossa primeira palavra será política: democracia.

Na Grécia Antiga, democracia foi originalmente o nome inventado pelos adversários dos democratas para insultá-los[1]. Por democratas eles designaram os pobres, as pessoas que não possuem nada, nenhum poder de dominação, seja o poder da diferença no nascimento, seja o poder da indiferença da riqueza que organiza a sociedade segundo privilégios.

Os democratas, porém, fizeram do insulto um nome. Sobre essa carga simbólica originária é interessante pensar, porque significou assumir a convicção da igualdade existente entre qualquer ser falante com qualquer outro ser falante. Assim, proteger a democracia, suas instituições e seus sujeitos é um modo de admitir que nenhuma forma de dominação é natural. Que o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae compareça ao espaço público movido pela determinação de tomar sua parte nessa tradição é motivo de imensa alegria para todos nós. Porque a democracia está entregue à constância de nossos próprios atos.

Há bons anos o filósofo francês Jacques Rancière veio pensando o ódio à democracia, deixando dito mais ou menos o seguinte: "A violência desse ódio é atual, não há dúvida. No entanto, não é ele nosso objeto, pelo simples fato de não termos nada em comum com aqueles que o proferem, portanto não temos nada que discutir com eles"[2].

Nesse ato de palavra, quero acompanhar Rancière. Tomarei pouco tempo, portanto, discutindo o caráter maligno de banalidades e silenciamentos aos quais estejamos submetidos. Os discursos da barbárie que produz imemoriais segregações e violências inauditas são, ademais, amplamente conhecidos. Como disse Caetano Veloso outro dia, "Não tenho nada com a morte, porque quando eu sou, ela não é, e quando ela é, eu já não sou"[3]. Assim espero distanciar-me do banal, ao invés de reiterá-lo. Ao banal, haverei de preferir o prosaico. Espero também deixar de lado o silenciamento, ao invés de fixá-lo; diverso do silenciamento é o cultivo do silêncio de onde brotam as palavras.

Da descontinuidade entre a prosa e o silêncio se faz nossa presença social, e é muito bom que possam se encontrar dois cidadãos, um homem e uma mulher razoavelmente aclimatados um ao campo do outro, um escritor e uma psicanalista, um Julián e uma Sílvia, dentre os tantos de nós que poderiam estar nesta laive e que de fato estão conosco, para uma prosa em torno dos tempos catastróficos que nos coube atravessar. Detenho-me então um pouquinho no qualificativo que escolhi para nosso momento atual, catastrófico, evocando a recente laive em que o psicanalista Julio Vertzman[4] lembrou que a catástrofe anuncia uma mudança radical e abrupta, na cena e na encenação, mudança que implica uma tensão máxima entre vida e morte e nos subtrai qualquer garantia de alívio que pudesse ser obtida através da catarse. Foi desse tipo de desconcertante experiência que tratou a psicanalista Silvia Bleichmar, a convite da unicef, por ocasião do terremoto de 1985 no México. A revista Intercambio Psicoanalítico[5], de nossa Federação Latinoamericana de Associações de Psicoterapia Psicanalítica e Psicanálise?- flappsip, acaba de publicar a primeira aula que Silvia ofereceu aos psicanalistas aos quais coube enfrentar, extramuros, a angústia do semelhante, transmitindo ferramentas para conter com eles e neles os efeitos das situações que vão se produzindo em ocasiões assim, aquelas em que somos colocados à prova frente ao que é potencialmente traumático. Anos depois, Silvia Bleichmar escreveria um artigo primoroso, de impressionante atualidade, por ocasião dos cálculos do risco-país durante a importante crise diária vivida em sua Argentina de 2001. Intitulado "Como se mede a dor-país?"[6], pensa os efeitos na subjetividade de uma catástrofe social que lança sujeitos na cena do desalento, e propõe que a dor-país se meça também por uma equação: "a relação entre a cota diária de sofrimento que exigem de seus habitantes e a profunda insensibilidade dos que são responsáveis por procurar uma saída menos cruel".

Torna-se assim possível dizer que, neste Brasil de 2020, trata-se de uma dupla catástrofe. Em conversas cotidianas, o duplo governamental da pandemia tem sido chamado pandemônio. Condenso o infortúnio deliberadamente produzido numa única expressão: pandemônia. Viral e virulenta a um só tempo, não cessa de transformar a interrogação sobre nossas condições de viabilidade como espécie humana em um risco gravemente imposto à autoconservação material e à autopreservação simbólica dos sujeitos políticos. De todos os sujeitos políticos. Risco comum, generalizado, quanto ao que se refere aos corpos coletivos que compomos estando juntos, e que se encontram subtraídos da ocupação das ruas. Risco específico, certamente autoritário, quanto aos corpos muito vulneráveis, os corpos expostos dos pobres, dos doentes e dos idosos.

Frente a essa amplificação do mal-estar na cultura, a melhor tradição freudiana sempre frequentou a palavra dos artistas, por sua resistente ocupação com o estranho, o infamiliar, o estrangeiro. De modo que é motivo de genuíno interesse receber Julián em nosso Departamento, para uma prosa de escutas e escritas voltadas aos tempos de agora.

Quanto a mim, ao aceitar o convite para esta criação das colegas Nanci de Oliveira Lima, Cida Aidar e Mabel Casakin, imediatamente flagrei-me imaginando que me sentaria à mesa com Julián e com elas... no auditório do Sedes!

É necessário dizer que esse vislumbre ficcional fez parte da minha disposição de estar aqui.

Pois o "como seria se" e o "como será quando" se tornaram modos possíveis de responder à exuberante quarentena de nossa sensorialidade. Suspenso o encontro entre os corpos, sofremos, antes de tudo, limitações do tato, do olfato, do paladar e da sinestesia, mas também nos encontramos restritos em nosso olhar, aqui agora limitado à planura dessas telas, assim como na escuta, subtraída dos sons incidentais que a interação com o mundo sempre produz. Vai daí o paradoxal funcionamento psíquico que frequentemente temos ativado, pelo qual completamos com excitações de memória?- afetos, impressões, lembranças e sonhos?- os estímulos que nos fazem falta à percepção, o que implica o desafio de lidarmos com as alterações que são assim produzidas em nossas referências de espaço e de tempo.

Um pouco de memória, portanto: Há muitos anos estive pela primeira vez naquele auditório Madre Cristina, para o que terá sido meu primeiro evento em nosso Instituto, ao qual eu sequer pertencia. Anos 1990, chamou-se Vírus Vidas, uma ação entre amigos em torno do adoecimento de um querido, por hiv. Ainda lembro a vertigem proporcionada pela leitura do livro de Jean-Claude Bernardet, a ficção intitulada A doença, uma experiência. Diante da doença, afirmar a experiência; diante do vírus, a vida. Tomo esses motes como abertura para abordar um específico lugar de enunciação subjetiva diante da catástrofe: o lugar do testemunho.

Há todo um conjunto de práticas sociais, incluídos diversos dispositivos de intervenção psicanalítica em Saúde Mental, baseados na circulação da palavra desencadeada por testemunhos. Diversos das confissões intimistas do que se viveu e ainda do constrangimento ao inquérito feito por um outro, os testemunhos têm a força de colocar em movimento o precioso trabalho de elaboração psíquica pelo qual podemos reinscrever de humanidade marcas de bem-estar que foram desfeitas pelos excessos das violências cometidas contra ela.

Afeitos à partilha do sensível, esses processos de reinscrição se fazem acompanhar dos afetos, formas primárias de representação com as quais contamos quando os ditos não se sustentam e as palavras nos escapam. "O afeto é um movimento em busca de uma forma", disse André Green[7]. Afetada pela pandemônia, avancei junto de muitos outros para recolher três figuras do testemunho que coloco em jogo hoje. Elas me permitem presentificar alguns trabalhos do campo da Arte, do qual costumo me ocupar pelo prazer de armar o olhar para o aspecto amável da vida humana.

 

Primeira figura, Máscaras

Começo pelas máscaras porque elas detiveram meu pensamento mês passado, quando elaborei Dia feriado, ainda não[8], escrita-sintoma resultante de uma travessia pela catástrofe-país, produzida a partir de dois espantos. Transcrevo alguns trechos a seguir: o primeiro espanto aparece de imediato; o segundo, ao final da narrativa.

"Eu não sabia que o modo como normalmente vivo era chamado quarentena?- disse a jovem estudante ao educador universitário que abriu sua primeira aula remota conversando sobre os limites impostos por Vírus à interação humana.

Não haveria nada mais diverso no modo como eu vivia. O contraste se deu no começo de tudo, quando acabava de transfigurar em largas expressões de rosto os abraços que antes tocaram pessoas queridas. Algo constrangida, pedia então licença aos motoristas do Uber para abrir minha janela e usar máscara e lamentava a perda da assistência da Regina, a quem pude encontrar ao longo dos últimos 27 anos cuidando da minha casa. [...]

Achei mais previdente estender meu trabalho presencial até o 19 de março. Assim, na semana em que alguns de nós já haviam generalizado a abertura de suas janelas on-line, alternava entre abrir a porta do consultório para as crianças, os adolescentes e alguns adultos mais sensíveis e reconstruir o enquadre com aqueles que já estavam prontos para se recolherem em suas casas. Uma pergunta de outrora?- beijo, abraço ou aperto de mão? - se transmutara: FaceTime, Skype ou Signal? Com a câmera ligada o tempo todo ou só durante as entradas e saídas, fomos redesenhando a situação psicanalítica. [...]

Comovia-me o vizinho que transferiu seus ensaios privados para o pátio do edifício e, munido de um amplificador, interrompia o silêncio da tarde atraindo-nos com seu violino para as varandas e janelas ao redor. [...]

Assim foi se tornando mais fácil pacificar a incontornável exigência de aprofundar a experiência da solitude. Muitas horas de sono, muitos sonhos. Reconexão com a vida dos primórdios, feita de alimento, repouso e brincadeira. Ah, e de choro. Na alegria de um videoclipe, "Isso também vai passar"[9], na tristeza das contagens inumeráveis[10] dos nossos mortos, idos antes de conseguirmos alcançar sequer meia cidade em rigoroso distanciamento social.

Até que me encontrei afinal diante de um intervalo, na temporalidade paradoxal da antecipação de um feriado. Vinte de novembro, falecimento de Zumbi dos Palmares, consciência negra, aconteceu no vinte e um de maio, quinta-feira. Ainda assim, zoom, daríamos aula e me apressei em revisitar algo da obra de Grada Kilomba.

Descendente de angolanos, portugueses e são-tomenses, nascida em Lisboa em 1968 e residente em Berlim, Grada é uma artista de mão cheia, formada em psicologia e em psicanálise. No Brasil, mostrou dois de seus projetos na 32a Bienal de Arte de São Paulo, Incerteza viva (2016): a videoinstalação O projeto desejo (2015-2016) e a performance Ilusões (2016); lançou seu livro Memórias da plantação?- episódios de racismo cotidiano na Feira Literária Internacional de Paraty de julho de 2019 e instalou a exposição Desobediências poéticas pelos quatro cantos da Pina Luz, entre julho e setembro de 2019.

O primeiro capítulo de seu Memórias da plantação[11] descreve a máscara do silenciamento da qual Grada ouviu falar muitas vezes durante sua infância, numa espécie de memória viva enterrada em sua psique e pronta para ser contada. A artista a reconta assim:

 

Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos. Ela era composta por um pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito negro, instalado entre a língua e o maxilar e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanas/os escravizadas/os comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de mudez e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?[12]

 

Compilo trechos para levar aos meus alunos. Haveremos de falar da boca como especial símbolo da enunciação, mas também, no âmbito do racismo, órgão de opressão severamente censurado, cenário em que se faz metáfora para a posse. Articularemos o medo branco de ouvir o que poderia ser revelado pelo sujeito negro ao conceito de recalcamento. Por fim, refletiremos um pouquinho sobre reparação. [...]

Com licença poética, quis assim dizer que é chegada nossa vez de usarmos as máscaras de agora, ficarmos entocados em nossas casas-grandes, providenciarmos sua faxina e cozinharmos nossa comida. Gestos de mínima reparação.

Contudo, numa coincidência inquietantemente estranha, enquanto acabava de tomar essas notas, fui surpreendida pelo envio indignado, feito por minha amiga Cristina Barczinski, da fotografia de uma supremacista branca antiquarentena nos Estados Unidos da América, portando um cartaz que dizia: ‘Focinheiras são para cães e escravos. Sou um ser humano livre'. Esse cartaz era miseravelmente ilustrado pela mesma imagem da escrava Anastácia portando a máscara do silenciamento a que Grada Kilomba se refere. Novo contraste: assim como eu, mas às avessas, a americana também pensava em aludir às máscaras com as quais nos protegemos, uns aos outros, dos riscos da pandemia. Mas, no cartaz dela, nada de poesia, símbolo, recalcamento[13], metáfora. São outros os nomes dessa sua crença, em clara positividade: impostura, fetiche, recusa e perversão. Que Vírus!"

É preciso deter Vírus.

 

Segunda figura, Janelas

A interdição da saída à rua costuma lembrar-me a potência de 1395 dias sem vermelho[14], média metragem do jovem albanês Anri Sala. Em trajes discretos, uma musicista insiste em atravessar diariamente a cidade, arriscando a vida para ensaiar a paixão do primeiro movimento da Sinfonia patética (1893) de Tchaikovsky junto da Filarmônica de Sarajevo, ao longo do cerco da cidade devido à Guerra da Bósnia, que perdurou de 1992 a 1996. A ausência de palavras neste filme de arte convoca a delicadeza de uma escuta sensível às conversações entre a respiração da protagonista e a música. Convoca ainda o olhar atento à produção coreográfica que antecede a elaboração discursiva. Aceito o convite do artista e revivo, como se fosse minha, uma experiência que de fato nunca foi. Guardo, assim, tanto a interdição: Não saia, quanto a consequente possibilidade de sua suspensão: Saia com ela.

Com as portas de casa bem fechadas, então lanço mão do recurso às janelas, desde logo amplamente buscado para figurar a persistência de nossa presença no mundo. O recurso me oferece um passeio visual pela história da arte, da Moça lendo uma carta à janela (1657-59), do renascentista Vermeer, à vivaz vegetação saída do escuro ao pulsar pela janela da Cama para sonhar (2000), do contemporâneo Cao Guimarães[15], passando por Magrittes, Vuillards, Picassos e Matisses. No uso cotidiano da palavra, janelas também me remetem aos nossos tempos ociosos, assim como aos espaços virtuais de conexão. Como signo de abertura protegida, bem consolidada e clara, estruturada e bem composta, janelas vêm cumprindo funções várias na experiência de confinamento ao espaço doméstico. Através delas recebemos bem-vindos raios de sol, fazemos barulho tocando tambores de protesto, escutamos e vemos algo da vida que se manifesta ao redor. Feito na canção Alguém cantando longe daqui[16], em que a voz, cantando como que pra ninguém, transmite a vocação para tornar-se humano.

Há ainda as janelas da alma, documentadas por João Jardim e Walter Carvalho[17]. Um dos protagonistas desse documentário de 2001 é Eugen Bavcar, o fotógrafo cego. Nascido em 1946 na Eslovênia, ele sofreu dois acidentes sucessivos aos 11 anos de idade, que lhe subtraíram o sentido da visão. Fotografa desde os 16 anos, pois lá estavam as imagens!

Ao dizer ali da arte conceitual que pratica, Bavcar narra a construção da fotografia de sua sobrinha, Veronica, correndo e dançando por um campo que ele vira há muito tempo. O artista colocou-lhe em mãos um sininho, que ele escutava. Ao fotografar o pequeno sino, que não se vê, fez assim uma fotografia do invisível. Bavcar me faz pensar na curiosa escolha, feita por alguns analisantes, de suspender o uso da câmera do celular durante as sessões on-line. Refiro-me especificamente àqueles que, presencialmente, costumavam sentar-se na poltrona à nossa frente. Penso essa abertura ao que pulsa exclusivamente no recurso à voz como efeito da interpretação do isolamento social como convite a um recolhimento. Um efeito pelo qual a apropriação da invisibilidade de um vírus pelo sujeito possibilita que ele invoque o que lhe é mais íntimo no exterior.

A qualidade da presença sensível de Bavcar nos permite ainda partilhar o humor com que ele traz, sempre consigo, um espelhinho na lapela, para o caso de a ausência do olhar ser incômoda ao outro. Noto a dimensão regressiva presente em todo o recolhimento e penso que ela poderia tornar danosa a invisibilidade daqueles que vivem a quarentena como intensificação dolorosa de seu desamparo. O recurso à imagem na ligação preservaria, assim, as faces dos analisantes diante dos quais nossos rostos fazem espelho.

Algo dessa tessitura do olhar, presente-ausente, me foi recentemente transmitido num passeio por uma trilha das imbuias, feito ao lado de um senhor chamado José, no interior do Paraná. Jardineiro de 45 anos de ofício, contou-me a seguinte história: Era uma vez uma imbuia. Nasceu, cresceu, deu filhos ao seu redor... Morreu. Dela ficou o vazio. Esse vazio foi circundado pelo "abraço" dos filhos imbuias que seguiram vivos. Sr. José é poeta. Pediu-me o celular emprestado e, prometendo-me?- risonho?- não o derrubar, levou-o, mão ligeira, para o interior do espaço configurado pela existência das árvores-filhas. Fotografou pra mim, de dentro, a alma de uma imbuia-mãe. Abriu-me uma janela ao tempo[18].

É preciso abrir nossas janelas ao tempo.

 

Terceira figura, Cascas

Cascas é o escrito em que o historiador da arte Didi-Huberman narra sua visita ao museu de Auschwitz-Birkenau, criado em 1947 na área dos antigos campos. O ano é 2011, quando Didi-Huberman arranca 3 cascas de uma bétula, coloca-as sobre uma folha de papel e olha para elas como quem olhasse 3 lascas de tempo, essa coisa não escrita que ele tentar ler. Didi-Huberman escreve:

 

A casca não é menos verdadeira que o tronco. É inclusive pela casca que a árvore, se me atrevo dizer, se exprime. Em todo caso, apresenta-se a nós. Aparece de aparição, e não apenas de aparência. A casca é irregular, descontínua, acidentada. Aqui ela se agarra à árvore, ali se desfaz e cai em nossas mãos. Ela é a impureza que advém das coisas em si. Enuncia a impureza?- a contingência, a variedade, a exuberância, a relatividade?- de toda coisa. Mantém-se em algum lugar na interface de uma aparência fugaz e de uma inscrição sobrevivente. Ou então designa, precisamente, a aparência inscrita, a fugacidade sobrevivente de nossas próprias decisões de vida, de nossas experiências sofridas ou promovidas[19].

 

A partir dessa expressão da identificação sobrevivente[20] de um historiador da arte diante de uma casca de bétula somos convidados a pensar que a sensação do inimaginável foi capaz de se converter numa das grandes forças estratégicas de um sistema de extermínio[21]. Por isso, desde Cascas, cumpro dizer com ele: "Isto é inimaginável, logo devemos imaginá-lo apesar de tudo"[22].

Consigna para o cotidiano da clínica psicanalítica corrente, plena de sujeitos vivendo seus impasses da imaginação: do ar que faltaria aos seus ao golpe que viria... No enfrentamento desses fantasmas, acompanho movimentos de quem reinventa modos singelos de cuidar: da preservação de sua fertilidade, da assumida rebeldia dos cabelos que se tornaram longos, de amores partidos, parentes distantes, trabalhos incertos, viagens suspensas, plantas cultivadas, bichos adotados, coisas pacíficas para seus futuros. A persistência do desejo de existir para os outros sustenta ainda o trabalho de sonhos absurdamente doces?- em que os amigos aparecem?- ou amargos?- em que partes do corpo são perdidas, mas a vida insiste. Distopias percorridas pelos olhos em livros e telas saltam para sonhos de aventura em que se fazem movimentos revolucionários.

É preciso resistir ao real.

Tudo me é concha

É isso: segue em curso, Julián, a rejeição mais coletiva da morte já registrada na história[23]. Para o reencantamento que advirá, tanto da experiência do comum quanto do erotismo entre os corpos. Se essa temperatura, amena, vier a consentir-nos devaneios do repouso, Sílvia Nogueira recorrerá à imagem da casca que aparece no livro de Gaston Bachelard, desejosa de reinscrever na alma certo dizer em torno do continente minimalista de uma casca de noz: "Tudo me é concha"[24]. Conto que a elaboração imaginativa[25] tenha cabimento em nosso enfrentamento das cotidianas dificuldades de viver, zelar e velar.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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