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34
Fragilidades. Da clínica à literatura
ano XVIII - 1° semestre 2005
167 páginas
capa: Ana Carolina de Oliveira
  
 

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Resumo
Resenha de, "Os limites da razão: Habermas, Lyotard, Melanie Klein" - Emília Steuerman, trad. de Júlio Castañon. Rio de Janeiro, Imago, 2003, 188 p.



Notas

1. Na Inglaterra, foi publicado em 2000 pela Routledge como The bounds of reason. Habermas, Lyotard and Melanie Klein on rationality.

2. Da qual o leitor brasileiro pôde ter uma pequena amostra por intermédio de um artigo publicado em 1988 (Habermas e a psicanálise”. Em S. A Figueira (org.) Efeito Psi. A influência da psicanálise. Rio de Janeiro, Ed. Campus).



Abstract
By Luis Claudio Figueiredo – review of Emília Steverman, Os Limites da Razão: Habermas, Lyotard, M. Klein This book crosses the boundaries that usually separate Philosophy and Psychoanalysis. It criticizes Habermas’ understanding of Psychoanalysis, examines Lyotard’s use of it to renovate ethics and political thinking, and suggests that a careful consideration of Klein’s contribution could bring into Philosophy some much-needed tools to cope with its present problems and culs-de-sac.

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 LEITURA

A psicanálise e os impasses da filosofia contemporânea

Psychoanalysis and the dead ends of contemporary philosophy


O livro de Emília Steuerman, recentemente traduzido para o português e publicado no Brasil, ocupa uma posição bastante singular. [1] Não apenas a psicanálise é trazida para os debates que agitaram a filosofia do século XX, como é apresentada como um interlocutor de relevo, capaz de transformar as bases da discussão e abrir novas perspectivas. Ademais, a psicanálise não comparece apenas ou principalmente em sua vertente freudiana original, mas também a partir desta renovadora genial do freudismo que foi Melanie Klein. Por esta razão, aliás, o livro, que em sua versão inglesa pertence a uma série intitulada Problems of modern european thought, sai no Brasil pela Imago e com uma pequena apresentação de um dos mais ativos disseminadores da psicanálise kleiniana entre nós, Elias Mallet da Rocha Barros. Ao cruzar o oceano, o livro parece ter cruzado também as fronteiras que separam as discussões filosóficas sobre razão e ética e o campo do pensamento e da clínica psicanalítica. Não se trata, em absoluto, de uma travessia indevida. Bem ao contrário: a própria autora, na página de agradecimentos, reconhece sua dívida para com a teoria e com a clínica psicanalíticas – que ela experimentou na condição de paciente. Foram estas aproximações intelectuais e vividas com a psicanálise que lhe permitiram, na condição de filósofa, percorrer de forma original as trajetórias e os impasses de Jurgen Habermas e Jean- François Lyotard, autores a quem ela dedicou diversos outros trabalhos no campo estrito da filosofia.

Em que pese sua simpatia para com o esforço habermasiano de renovação da razão a serviço de uma refundação da ética, desde sua tese de Doutorado na Universidade de Londres [2], Maria Emília Steuerman dedicava-se a apontar seus limites e, mais ainda, identificar os usos restritivos e enviesados que Habermas fazia da psicanálise freudiana, usos que de uma certa forma a desfiguravam. Tal como é o caso do autor alemão, também no francês Lyotard a renovação da razão esteve a serviço de um redimensionamento das questões éticas e políticas, o que parece ser o que mais atrai Emília Steuerman. Não há como reduzir a importância e oportunidade dos trabalhos destes dois autores em um mundo tomado pelas ameaças de violência e, eventualmente, pelos remédios ultraautoritários e ainda mais violentos que o mal que procuram erradicar (vide a reeleição de Bush!). A renovação da razão (que deveria deixar de ser monológica para ser dialógica) e o reconhecimento de seus limites – tanto no que tange aos “outros da razão”, como no reconhecimento da diversidade das formas históricas do “racional” – tornam-se necessários para que possamos conceber um mundo menos cruel, menos totalitário e mais respeitoso diante das diferenças, das diversidades culturais e das singularidades humanas; mais apto, enfim, a lidar com as alteridades. No entanto, ao retirar a Razão – com “R” maiúsculo – da supremacia inconteste e abstrata que gozava no projeto filosófico e político da modernidade para trazêla ao campo das práticas sociais e linguageiras em suas particularidades históricas e em suas dimensões corporais e concretas (o que inclui as necessidades, os afetos, os desejos, etc.), ao destituir a Razão de sua pretendida transcendência e universalidade, os riscos são enormes: a voga do irracionalismo e de um certo culto ao corporal e à diversidade em estado puro podem, justamente, impedir que da crítica ao velho racionalismo venha a emergir uma razão renovada e mais humana. Esse parece, ter sido, por exemplo, o limite do projeto filosófico de Lyotard. Por outro lado, a retomada do racionalismo em novos termos, como faz Habermas, principalmente depois de sua guinada lingüística, parece apenas brecar o próprio movimento renovador que o aproximara da hermenêutica e, mais tarde, de Wittgenstein e da pragmática. Assim, entre a contingência das razões e a necessidade da Razão, entre o universal e o particular, entre a Razão, as outras razões e os outros da razão (suas condições materiais, biológicas, sociais etc), a filosofia moderna oscila produzindo, às vezes, uma argumentação crítica eloqüente e eficaz, mas raramente avançando na construção de uma nova racionalidade e de uma nova ética. Estas questões são equacionadas nos primeiros três capítulos do livro, intitulados respectivamente “A crítica da razão: Habermas e Lyotard”, “A guinada lingüística de Habermas” e “A guinada lingüística de Lyotard”.

É no contexto desta encruzilhada que Maria Emília Steuerman procura mostrar como a psicanálise freudiana foi usada – e de certa forma, abusada – por estes autores, embora ao fim e ao cabo eles não lhe tenham reservado nenhuma posição destacada em seus pensamentos maduros (talvez pudéssemos aí identificar formas dissimuladas de resistência à psicanálise...). Nossa autora defende a tese, porém, de que uma consideração profunda e meticulosa de Freud e Melanie Klein (o que ela realiza no capítulo 4, intitulado “Freud e Klein”) traria à filosofia contemporânea elementos indispensáveis para o bom enfrentamento de seus problemas e impasses.

Na tradição estritamente freudiana, a questão do inconsciente, de seu estatuto teórico e clínico, do conhecimento que se pode obter dele e, mais ainda, das transformações que a clínica pode efetuar nas relações entre a consciência e o inconsciente (o que não supõe de forma alguma a redução do segundo à primeira) poderiam orientar o filósofo em sua discussão do que pode ser realmente uma renovação da razão que inclua seus limites como condição de possibilidade efetiva da própria razão. Ou seja: o inconsciente (e o mundo dos afetos) não é apenas um outro da razão, mas uma base efetiva para toda a atividade do pensamento racional.

Na vertente kleiniana das chamadas “relações de objeto”, Emília Steuerman parece ainda mais à vontade e capaz de maiores contribuições, baseandose tanto nas obras de Melanie Klein como nas de seus seguidores, algumas bem recentes. Parece-nos, aliás, que os momentos em que a autora introduz o viés kleiniano são os mais elucidativos e inovadores de seu trabalho. Isso ocorre de forma particularmente feliz na seqüência das análises que faz dos movimentos de Habermas e Lyotard em direção às questões éticas (capítulos 5 e 6). Ao tratar das questões da ética – em especial, da possibilidade e da necessidade de uma justificativa racional para a tolerância com a diferença e a diversidade, e da convivência com a alteridade – a partir da contraposição das posições subjetivas estudadas por Melanie Klein e denominadas de esquizo-paranóide e depressiva, Maria Emília Steuerman não só apresenta Melanie Klein a seus leitores filósofos (o que não é nada fácil), como desenvolve uma argumentação que não fica em nada a dever ao que se poderia exigir em rigor e argúcia a um psicanalista kleiniano. Ela nos oferece excelentes argumentos em defesa de uma de suas teses principais: a relação de objeto própria da posição depressiva é a base afetivo-cognitiva do pensamento e das atividades de conhecer objetivamente o mundo e os outros sujeitos em termos de suas diferenças e de sua autonomia. Da mesma forma, o redimensionamento de um pilar do freudismo – o complexo de Édipo, lido pelos kleinianos seja como uma tragédia do conhecimento e do conflito entre o saber e a vontade de ignorar (Steiner), seja como a condição quase transcendental para uma relação de objeto madura e para as atividades intelectuais criativas (Britton) – dá o máximo alcance à incidência do pensamento de Melanie Klein no debate contemporâneo sobre razão, ética e justiça.

O que a autora consegue demonstrar de forma límpida e esclarecedora é que todas as conquistas do pensamento e da razão (com r minúsculo) dependem de arranjos afetivos e emocionais inconscientes que estruturam as subjetividades humanas ao longo de processos de vida muito precoces. No entanto, este condicionamento histórico e emocional da razão não a desqualifica enquanto tal, apenas aponta para as suas bases e condições de possibilidade, sem que alguma forma de irracionalismo venha a lhe tomar o lugar. Bem ao contrário, Freud e Melanie Klein são herdeiros e promotores da Ilustração; longe de a repudiarem, levam-na ainda mais longe, criando para tal uma lógica que na teoria e na prática clínica transforma continuamente as relações entre a razão e seus limites.

Trata-se, enfim, de um livro que pode, e deveria, interessar ao leitor filósofo que se disponha a fazer um contato com problemas da filosofia contemporânea pelo viés inusitado da psicanálise. Naturalmente, é também um livro endereçado ao psicanalista, principalmente ao que não se tenha ainda dado conta do potencial de pensamento embutido em suas teorias e em suas práticas clínicas. Finalmente, é um livro que pode interessar a quem quer que se aflija com os impasses da história e da cultura ocidental e se interesse por novos horizontes para pensá-los, como é o caso dos cientistas sociais. Para nenhum desses leitores, certamente, será uma leitura fácil, pois a autora mobiliza informações e argumentos de procedências muito distintas e que quase nunca se encontram reunidos de forma inteligível, tal como ocorre nos seis capítulos deste livro. Por isso mesmo, contudo, Emília Steuerman consegue oferecer a filósofos, psicanalistas e cientistas sociais uma contribuição sumamente interessante e oportuna.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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