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66
Palabra concreta
ano XXXIII - Junho 2021
183 páginas
capa: Augusto de Campos
  
 

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Resumo
Resenha de Ana de Staal; Howard B. Levine (orgs.), Psicanálise e vida covidiana?– Desamparo coletivo, experiência individual, São Paulo, Blucher, 2021, 394 p.


Autor(es)
Caio Liudvik
é cientista social com mestrado, doutorado e pós-doutorado no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo; jornalista, escritor e tradutor.



Notas

1.P. Gay, Freud: Uma vida para nosso tempo. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 358-370.

2.S. Freud, Além do princípio do prazer, in Obras Completas, v. 14. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

3.S. Freud, O mal-estar na civilização, in Obras Completas, v. 18. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010c.

4.A Camus, O mito de Sísifo. Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Record, 2007.

5.A Camus, A peste. Trad. Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2017.

6.Cf., p. ex., (Acesso em 1 jul. 2021).

7.Cf. (Acesso em 30 jun. 2021).

8.J. Laplanche; J.-B. Pontalis, Vocabulário da psicanálise. Trad. Paulo Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 436.

9.Cf. (Acesso em 30 jun. 2021).

10.    N.N. Taleb, Antifrágil?- Coisas que se beneficiam com o caos. Trad. Eduardo Rieche. Rio de Janeiro: BestSeller, 2014.

11.    S. Freud, "O início do tratamento", in Obras Completas, v. 10. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010c. [1913], p. 164.

12.    A Artaud, apud P. Gay, Freud: uma vida para nosso tempo, op. cit., p. 360.

13.    J. Grenier, Albert Camus?- Soleil et ombre. Paris: Gallimard, 1987, p. 171.


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 LEITURA

Peste e psicanálise do absurdo [Psicanálise e vida covidiana – Desamparo coletivo, experiência individual]

Plague and psychoanalysis of the absurd
Caio Liudvik

Ao apresentar suas condolências pela morte do pai de Ernest Jones, Freud perguntou ao discípulo e futuro biógrafo: "O senhor consegue se lembrar de uma época tão repleta de morte quanto a atual?"[1] Era o início de 1920, em uma Europa que acabava de ser devastada por uma guerra mundial seguida imediatamente por outro morticínio, imposto pela gripe espanhola.

 

O suicídio do discípulo Victor Tausk, o câncer fatal do amigo Anton von Freund e, sobretudo, a perda brutal da filha Sophie e do neto que ela levava no ventre?- duas dentre as milhares de vítimas da pandemia?- foram outras tantas experiências pessoais que aguçaram ainda mais em Freud o senso trágico a que seu gênio teórico daria revigorada expressão com a publicação, naquele mesmo ano, de Além do princípio do prazer[2].

 

A "brutalidade descarada de nossa época"[3], de que se queixa em carta a Pfister, é um dado histórico indissociável da formulação, naquele livro, do conceito de pulsão de morte, com o qual Freud revolucionou o arcabouço teórico e clínico da psicanálise e a colocou no rumo de um novo olhar, nos anos seguintes, sobre questões mais amplas da cultura e da sociedade.

 

Exatos cem anos depois, uma nova pandemia, a da Covid-19, articulada com sintomas de degradação da saúde da própria democracia, vem nos pôr a todos, analistas ou não, face a face com a imortal vocação humana às catástrofes, ou seja, com o que Albert Camus, também ele sob a pressão de outro desastre (o surto nazifascista e a Segunda Guerra Mundial), enunciou como nossa condição ontologicamente absurda, figurada na condenação de Sísifo a eternamente carregar a pedra que havia no seu caminho para o alto de uma montanha e então vê-la, quando quase terminara a tarefa, cair de lá ao sopé, e ter de começar tudo de novo[4].

 

Assim como Freud, seus discípulos se veem convocados a (re)pensar as bases teóricas e operacionais de seu próprio ofício para fazer frente aos novos absurdos com que a Caixa de Pandora do mundo quis nos presentear. E o estão fazendo com grande qualidade, ao menos pelo que se constata à leitura deste Psicanálise e vida covidiana?- Desamparo coletivo, experiência individual, livro organizado por Ana de Staal e Howard Levine, e lançado simultaneamente em inglês, francês e português.

 

Trata-se de uma coletânea de quinze artigos que, ao lado da excelência em comum, tem a marca da diversidade teórica e geográfica dos colaboradores. Brasileiros e estrangeiros, são expoentes contemporâneos de escolas como a de Freud, Ferenczi, Winnicott, Bion que tratam de diferentes aspectos da tragédia covidiana em contextos como Estados Unidos, França, Itália, Brasil e Israel.

 

Tal multiplicidade ajuda a sublinhar como o impacto universal da pandemia gera repercussões específicas conforme os contextos locais, as opções interpretativas que pautam os analistas e essa aventura, singular que é o corpo a corpo de cada processo de análise.

 

Como falar em corpo a corpo analítico, aliás, quando uma das consequências mais importantes do novo coronavírus foi a obrigatoriedade do distanciamento social? Esta é uma das propostas recorrentes ao longo do livro: uma reflexão, ainda que necessariamente inicial, sobre aquilo que os organizadores chamaram de a resiliência do dispositivo analítico, quando a dialética de analista e paciente não pode acontecer sob a mediação do divã, e sim com a do ecrã?- a tela de celulares ou computadores, quando a opção não for por telefones fixos. "Com efeito", indagam os organizadores na nota introdutória, "até que ponto poderia o setting, esse continente de realidade psíquica sem o qual o processo psicanalítico não tem lugar, suportar o peso de uma realidade tão brutal, inoportuna e traumática?" (p. 20).

 

A psicanálise remota, até então experiência pontual, por exemplo em supervisões, ou no trabalho com um analisando expatriado, de repente se viu imposta como praticamente a única forma de psicanálise disponível. Mas seria ela uma experiência verdadeiramente possível, não só para pacientes e supervisandos mais específicos, mas na escala generalizada imposta pelo confinamento? É natural, até por questão de sobrevivência do ofício e de seus praticantes, que em situação excepcionalmente opressiva desse tipo a pergunta não seja se é possível, mas como fazer acontecer. Como minorar as perdas inevitáveis da impossibilidade do encontro presencial e, além do mais, explorar possibilidades analíticas que na era virtual já eram latentes, mas pouco reconhecidas?

 

Só para dar um exemplo: se se perde o "devaneio no caminho" (p. 21) do paciente até o consultório, parte integrante de uma sessão, como sugerem Staal e Levine ainda no texto introdutório, há que se considerar o que se ganha com a eliminação de transtornos concretos desse caminho?- as lentidões e irritações do dia a dia ruidoso, superlotado e engarrafado das grandes cidades.

 

Assim também, eventos (palestras, cursos, congressos) antes inviáveis ou sobremaneira afetados por restrições de tempo, espaço e recursos financeiros se veem agora muito mais acessíveis do que se podia supor, o que vem a fortalecer a circulação mais ampla de ideias e de experiências e, pois, potencializar o avanço da psicanálise como um saber tão transterritorial quanto a civilização?- com seus recursos e mazelas globais?- em que está inserida.

 

A sequência dos capítulos é muito bem pensada para nos conduzir de um polo a outro do espectro multifacetado da potência da psicanálise: do exame de conjunturas históricas mais amplas até a riqueza insubstituível dos estudos de caso.

 

Christopher Bollas, em "Os insatisfeitos na civilização", analisa a conjunção sinistra (aliás explorada por Camus no romance antifascista A peste, de 1947[5], não por acaso redescoberto maciçamente em 2020[6]) entre o absurdo natural de uma peste e patologias propriamente sociais. Bollas expõe o péssimo manejo da pandemia por Donald Trump, não como mera incompetência, mas como projeto deliberado, um jogo casado com os interesses de um estilo de exercício do poder cujos traços psicopatológicos personificam o estranho momento da psicologia coletiva norte-americana.

 

Ao lado da subserviência típica de um gado fascista, tem-se hoje, nos Estados Unidos (mas não só lá), um amplo contingente de pessoas cuja psique está privada do equilíbrio entre love and law (amor e direito) que Bollas reputa inerente à construção de uma personalidade sadia. Coletivista no culto de massas ao líder, essa gente ao mesmo tempo professa ódio libertário contra o Estado e seus supostos tentáculos ditatoriais, como as máscaras e restrições de comércio e lazer, medidas que a ciência mostra serem inevitáveis para a contenção desse tipo de vírus. São egos sem continência psíquica, para os quais as regras do convívio democrático são um fardo insuportável. "Enquanto norte-americanos são sugados pelos processos mentais do presidente, a política se torna a arte de congregar pessoas por trás de falsas realidades geradas por uma mitopoética psicótica" (p. 42).

 

Não se trata, porém, como Bollas já asseverava, de tendência social monolítica e irreversível. Há focos de lucidez e de resistência que seu artigo já pôde levar em consideração, como o movimento Black Lives Matter. E houve, posteriormente, o alívio trazido pela vitória de Joe Biden. Pena, como disse em live recente[7] Daniel Kupermann, organizador da edição brasileira e um dos colaboradores da coletânea, que não tivemos a mesma sorte, dada a distância ainda a percorrer até as eleições presidenciais no Brasil.

 

Em "A catástrofe e seus destinos: os negacionismos e o efeito vivificante do ‘bom ar'", Kupermann investiga mais de perto a variante brasileira, como diriam os epidemiologistas, da dupla tragédia que é a crise do coronavírus e sua gestão política negacionista.

 

Kupermann relembra algumas das tantas declarações vexatórias (que em um país de instituições minimamente saudáveis seriam motivo de cassação sumária) do atual presidente. Entre elas, a proferida quando ele foi questionado sobre a marca então atingida de cinco mil mortos: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias [trocadilho com seu sobrenome (C.L.)], mas não faço milagre" (p. 149).

 

Mas o que explica que um homem desse naipe seja apoiado e mimetizado nas suas condutas de descaso e de deboche no cotidiano covidiano de setores expressivos da população brasileira, em diferentes classes sociais? Kupermann nos ajuda a compreender isso, com sua tipologia dos negacionismos hoje em ação entre nós: o ilusório, o hipócrita e o pragmático.

 

O negacionismo ilusório remonta ao conceito freudiano de Verleugnung, a recusa subjetiva em reconhecer a realidade de uma percepção traumatizante, mecanismo evocado por Freud em particular para explicar o fetichismo e as psicoses[8]. Esse negacionismo, expresso no fetiche bolsonarista pela cloroquina e no boicote sistemático do uso de máscaras e do distanciamento social, "é bastante atraente para seduzir boa parte da população ansiosa para crer que suas angústias não passam de despropósitos, o que confere a essa forma de negacionismo grande potencial ludibriador das massas assustadas e descrentes" (p. 150).

 

Partindo da definição ferencziana de hipocrisia como "a insensibilidade do sujeito frente ao sofrimento do outro, que se vê reduzido a objeto do gozo desse mesmo sujeito", Kupermann chama de negacionismo hipócrita a atitude de "uma parcela das classes privilegiadas da sociedade (políticos, empresários, comerciantes) que sabe que para ela sempre haverá a possibilidade de distanciamento social confortável (muitas vezes em amplas casas de praia e/ou montanha afastadas dos grandes centros), cuidados médicos, leitos hospitalares e respiradores que funcionam?- ao contrário daqueles superfaturados comprados às pressas, sem licitação, pelo poder público" (p. 151).

 

Esse segundo tipo é também ilusório, ao escamotear o risco de morte contra o qual nem todo dinheiro do mundo é capaz de blindar em caso de um mau encontro entre esse vírus assassino e um sistema imunológico suscetível. Ao mesmo tempo, é arrogância à qual uma realidade social brutalmente desigual como a nossa não deixa de dar certa razão. O absurdo estrutural como que legitima o absurdo moral espelhado no urro ébrio de uma mulher, em festa de pré-réveillon na Barra de São Miguel, Litoral Sul de Alagoas: "É só me entubar, p..., me entuba, p..."[9].

 

Já o negacionismo pragmático incidiria nos setores mais desfavorecidos da população. Novamente, a inspiração vem de Ferenczi, no caso, do processo psíquico que ele define como identificação com o agressor. O sujeito assume na relação consigo mesmo o desvalor a que seu lugar social o condena. Não tenho como me dar ao luxo de ficar em casa, nem de bancar os custos com álcool, com máscaras, portanto o isolamento social é balela, quem tem razão é o mito e todo um kit magia que, com cloroquina, fé narcísica de que comigo essa gripezinha não terá vez, água e feijão bentos do pastor, me dispensam dos estorvos do princípio de realidade.

 

"Estar na linha: qual elasticidade e qual invariância para o setting psicanalítico?". Com essa questão de Antonino Ferro, passamos do macrocosmo político-social da pandemia aos seus efeitos práticos para o ofício do analista. O membro da Società Psicoanalitica Italiana começa recordando as objeções que a psicanálise à distância tende a suscitar entre os mais tradicionalistas: "A ausência do corpo, o medo de ativar emoções incontroláveis ou de introduzir um controle emocional excessivo, foram alguns dos problemas enfatizados" (p. 163-164).

 

Mas a experiência pessoal de Ferro parece apontar para efeitos mais positivos: "A primeira coisa que notei trabalhando remotamente foi minha maior liberdade no uso de capacidades negativas (negative capability), ou seja, parafraseando Keats, a capacidade de estar na incerteza, no mistério, na dúvida, sem a impaciência de correr atrás dos fatos e das razões" (p. 165).

 

O depoimento pessoal de Ferro nos sugere pensar que o dispositivo analítico tem se mostrado, na crise do coronavírus, mais do que apenas resiliente, verdadeiramente antifrágil, para evocar a definição de Nassim Nicholas Taleb[10] para coisas e processos que, mais do que resistir ao choque (trauma) e voltar ao formato original (essa capacidade física de um elástico, por exemplo, inspira a resiliência como metáfora psicológica), são capazes de se reinventar na desordem.

 

Ferro admite ser alguém que não se sente à vontade em ser demasiadamente "enquadrado" por vínculos institucionais (p. 165). Isto, em parte, pode explicar que ele veja com bons olhos, e não só neste tempo de emergência, a abertura do enquadre analítico para condições mais flexíveis?- o que não quer dizer menos rigorosas?- associadas às sessões remotas. "Muitas pessoas afirmam que a tela funciona como um ‘filtro de bloqueio' das emoções, mas essa não foi a minha vivência: pareceu-me, ao contrário, favorecer uma nova e livre circulação das emoções. Afinal, será que o teatro é necessariamente mais envolvente e emocionalmente mais impressionante do que o cinema?" (p. 165).

 

Como deixa claro essa analogia com cinema e teatro, não se está propondo que a consulta presencial tenha de ser descartada como algo obsoleto. O que a calamidade pandêmica, ou melhor, o que o engenho humano pôde fazer em resposta a ela, poderá deixar de legado é um cardápio mais amplo de alternativas de trabalho igualmente, ou melhor, diferencialmente eficazes. Não é por ser presencial ou remota que acontecerá ou deixará de acontecer o rapport que, ele sim, é indispensável a que aquilo que poderia ser um falatório anódino se converta em uma sessão analítica.

 

"Parece-me", conclui Ferro, "que a chegada do modo remoto mudou completamente o nosso olhar em relação à análise, e que o que deixou de ser feito nesses últimos cem anos, quando tivemos uma psicanálise muito parecida com ela mesma, muito enrijecida, terminou acontecendo graças a esta tempestade que se abateu sobre nossa maneira de trabalhar" (p. 165).

 

Ana de Staal, analista brasileira radicada na França e formuladora original do projeto magnífico que é este Psicanálise e vida covidiana, toma de empréstimo, como uma das epígrafes de seu artigo, palavras do próprio Antonino Ferro: "E em nome do que ficar sentado, colado na janela comentando a paisagem, se, por exemplo, houvesse um incêndio? Se as chamas atingissem o trem e queimassem a cabine?" (p. 173).

 

A outra epígrafe, com a qual dialoga provocativamente a citação de Ferro, vem do artigo "O início do tratamento"[11] de Freud, obra aliás fundamental como referencial do enquadre clássico do trabalho analítico. As primeiras linhas do artigo (não é de lá que Staal extrai sua citação), aliás, são particularmente inspiradoras, pelo alarme que fazem soar contra a possibilidade de o profissional cair na armadilha da mecanização da técnica quando não leva suficientemente em conta a diversidade e plasticidade dos processos psíquicos e a riqueza dos fatores determinantes em jogo no encontro analítico.

 

Voltando à epígrafe tomada a Ferro, ela vem especialmente a calhar para Staal porque seu artigo parte do relato dramático de um incêndio ocorrido em apartamento vizinho ao consultório dela em Paris, durante uma sessão no inverno de 2016.

 

Depois da descrição do incidente, Staal fala de reverberações psíquicas suscitadas nos pacientes?- não só naquele que estava em análise na noite fatídica?- pelos danos materiais do consultório. "As marcas de fuligem, as fissuras, a miríade de pequenas cicatrizes e os vagos odores deixados pelas chamas nas paredes do consultório começaram a refletir, mais ainda, a dar forma, figura e significado aos sofrimentos íntimos de muitos pacientes, em um movimento semelhante a uma autorreparação do enquadre" (p. 182).

 

A analista passa então a um segundo "incêndio", a pandemia. "Do divã à tela, tínhamos acabado de perder um lado material, concreto?- mas também afetivamente muito investido?- de nosso enquadre de trabalho habitual; ainda não sabíamos nada sobre o novo dispositivo que nos aguardava. Seria resistente ao fogo? Como poderíamos chegar lá atrasados? Qual o seu cheiro? Nós descobriríamos" (p. 184).

 

Ainda estamos descobrindo. Não é tempo, ressalta Staal, de veredictos prematuros e definitivos, que em plena vigência do trauma, não seriam mais do que irrisórias tentativas de racionalização. O trauma, como irrupção dolorosa de algo excessivo e hostil?- desse Unheimliche freudiano a que Camus dá o nome filosófico de absurdo?- é evento que deseja, qual um vírus mortal, escapar dos sistemas imunológicos da natureza e da linguagem.

 

O paciente arrancado do divã de Staal pelas chamas começou, com o tempo, a dar sinais de "uma espécie de fadiga traumática feita de desencorajamentos persistentes, dores de barriga mais intensas e trens de pensamentos interrompidos por brancos intempestivos. Apesar do resultado bastante feliz do ocorrido?- nenhuma morte ou ferimentos graves a lamentar, grandes danos limitados a alguns metros quadrados etc. - as associações do analisando se empobreceram, enquanto seu tecido discursivo se rasgou em alguns lugares; ele iniciou então a longa travessia de um deserto psíquico" (p. 191).

 

O incêndio que nos arrancou das zonas de (des)conforto sacramentadas pelo hábito parece tornar inevitável, mais cedo ou mais tarde, em graus menores ou maiores, a dor de desertos psíquicos como esse. Mesmo que sejam muitos os exemplos em que as dificuldades parecem ir sendo vencidas pelo poder combinado da empatia e da competência técnica?- vide o caso comovente da menina autista de três anos, cujo tratamento pelo celular é relatado por Patrícia Cardoso de Mello.

 

"Ao longo de cinco meses de trabalho" (p. 321), diz a analista, "a ruptura brutal do enquadre analítico" (p. 321) habitual deu lugar à "construção de um novo enquadre on-line, capaz de produzir efeitos terapêuticos tão interessantes quanto inesperados" (p. 321). Em dinâmicas que estamos aqui, em sua natureza geral, sugerindo pensar como antifrágeis, Mello destaca "o surpreendente devir do celular e seu duplo estatuto: como dispositivo organizador da situação analítica e como brinquedo/ferramenta de subjetivação" (p. 321).

 

O absurdo é cruel como a necessidade que houve de se arrancar o dente de um dos internados para facilitar a intubação, como lemos no relato de Steven Jaron (p. 298) sobre seu dia a dia dentro do inferno (a metáfora é dele, inclusive com paralelos literários tomados à Divina comédia de Dante) em um hospital público e junto a pacientes de Covid já saídos da UTI. O absurdo é como o choque desanimador citado por Howard Levine no texto que fecha a coletânea: o choque de, como se a História fosse um eterno retorno, sem qualquer fim apaziguador à vista como o anunciado por Fukuyama na virada para o século XXI, termos de constatar "o quão superficiais os ideais da democracia liberal progressista são em comparação com o racismo, classismo, xenofobia, ódio, negligência e ganância que jazem logo abaixo do fino verniz social de muitos países ocidentais" (p. 378-379).

 

Levine, nesse artigo, propõe o conceito de "Neurose Atual Traumática" (p. 388) para definir os muitos casos de "ansiedade, tensão e fadiga, seguida por hipocondria, distúrbios do sono e da alimentação e pequenos distúrbios somáticos" (p. 388) verificados desde a eclosão da pandemia (p. 388). "Embora Freud", prossegue o autor, "restringisse o uso do termo atual a transtornos de origem sexual?- libido reprimida, excesso de masturbação?- há uma boa razão para estendê-la a eventos não sexuais que agridem e destroem nossas capacidades psíquicas regulatórias" (p. 388), o escudo protetor do ego.

 

Levine é um dos autores de referência do excelente artigo de Alberto Rocha Barros e Elias Mallet da Rocha Barros, "Paisagens da vida mental sob a Covid-19", que também reflete, com magistral equilíbrio entre imaginação teórica e lastro clínico, sobre as reformulações que o mundo contemporâneo, em particular neste contexto de vida covidiana, parece exigir para o conceito psicanalítico de trauma. A afinidade entre o evento traumático e o confinamento de sua vítima em uma temporalidade cíclica, a-histórica?-como a do Sísifo camusiano?- fica patente na comparação que um paciente faz entre sua própria situação psíquica e o protagonista do filme Feitiço do tempo, de 1993, misteriosamente condenado a reviver o mesmo dia infinitamente (p. 113).

 

O filme, porém, tem uma mensagem otimista, a de que o desbloquear de nossa capacidade de empatia é a porta de saída do inferno da repetição. Menos hollywoodiano, e com um tom estoico, mas que também antecipa a honra trágica em Camus, Freud se referia à agonia final de seu amigo von Freund nos seguintes termos: "Ele suportou seu estado desesperado com lucidez heroica, não desonrou a análise"[12]. Considerando-se que também a psicanálise é uma cura pelo amor, a distância entre o cativante (no duplo sentido) destino do personagem de Bill Murray e uma resposta analiticamente orientada às desgraças traumáticas da existência pode ser menor do que pode parecer.

 

Criatividade e amor têm, porém, hoje, de se confrontar com uma época tão repleta de morte quanto a de Freud. A brutalidade atual é tão descarada quanto aquela que o espantava, e que ele provou na carne na perda da filha no contexto da peste daquele tempo.

 

Ao absurdo, Camus respondia com a revolta que nos faz solidários ainda que solitários. Este livro traz lições individuais (as de cada colaborador, em sua respectiva vivência reflexiva do caos pandêmico) de revolta que lembram o médico Rieux em luta com as trevas da peste no romance de Camus. A tomada da consciência do absurdo, em Camus, é ponto de partida da autenticidade ética do sujeito, o que passa também pelo seu engajamento na luta contra os flagelos coletivos. Nesse sentido, o simbolismo da peste revela-se de um valor iniciático não sem paralelo com a estética de Artaud[13], mas que também se poderia remeter ao proverbial comentário de Freud a Jung de que estavam levando a bordo a peste para os Estados Unidos, na viagem de 1909.

 

Peste como corpo a corpo com a nossa solidão e começo de saída, já nos próprios isolamentos impostos pelo real, do isolacionismo enquanto ilusão egoica tão vendida pela sociedade de mercado. Peste como passagem da mera condição absurda à revolta que, de solitários, nos torna solidários, algo a que este Psicanálise e vida covidiana faz jus em sua própria estrutura colaborativa e multicultural. Um livro que, para evocarmos o heroísmo trágico freudiano, honra, também em suas produtivas perlaborações teóricas e clínicas do trauma pandêmico, a psicanálise como potência antifrágil que pode nos fortalecer na fragilidade de nosso desamparo e na dignidade de nosso combate aos monstros que assolam a vida e a democracia.


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