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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
64
Ter remoto Pensamentos em tempos pandêmicos
ano XXXII - Junho de 2020
163 páginas
capa: Augusto de Campos
  
 

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Resumo
Resenha de Plinio Montagna, Alma migrante, São Paulo, Blucher, 2019, 400 p. Série Escrita Psicanalítica, coordenação Marina Massi.


Autor(es)
May Parreira e Ferreira Ferreira
é psicóloga, psicodramatista, psicanalista. Hoje, sócia da Ofício das Palavras Editora e Estúdio Literário.


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 LEITURA

Alma migrante?– travessias [Alma migrante]

Migrant soul?– crossings
May Parreira e Ferreira Ferreira

A resenha de uma obra deve, a princípio, descrever e analisar outra produção textual. Pode ser descritiva ou opinativa. Escolhi a segunda forma para falar de Alma migrante, de Plinio Montagna. Já foi dito que o livro é uma obra de arte, e reforço, aqui, a ideia. A palavra “arte” deriva do latim ars, artis, “maneira de ser ou de agir; profissão, habilidade natural ou adquirida”, e, na cultura greco-romana, possuía o sentido de “ofício, habilidade”. A arte pode ser vista como conhecimento, visão ou contemplação. Numa outra definição podemos dizer a arte é expressão. Em todos os sentidos Alma migrante se encaixa. É o livro de um artista sobre o ofício que ele conhece. Por ser o artista quem é, busca na poesia, na pintura e na literatura, a essência para desempenhar o papel de psicanalista sensível que é.

Alma migrante se lê em três momentos que interagem e se completam.

Na primeira parte, “Reflexões”, Plinio Montagna nos leva sem esforço ao questionamento sobre a “Psicanálise e o conceito da resiliência”, pensados bem antes da pandemia e essenciais para a compreensão do momento atual. Em “O rapto das metáforas”, somos encorajados a enfrentar o desafio que representa a intangível continuidade entre mente e corpo e os estudos de fenômenos psicossomáticos. Quais são as vias de derivação da angústia para o fenômeno psicótico ou psicossomático?

Muitas são as questões propostas em “Sintaxe do tempo nos tempos de hoje”, quantos de nós já repensamos “Sobre a dor de amar”; em “Finitude e transitoriedade” vamos percorrer o conceito de resiliência. Somos embalados nas muitas referências artísticas como Beethoven, Cyrulnik, Bauman, Montaigne e tantos outros. Pensar. Refletir. Analisar. Psicoanalisar.

 A segunda parte, intitulada “Clínica”, nos permite entrar no cotidiano do atendimento clínico. No capítulo “Tropismos na clínica: tropismo de vida e tropismo de morte” temos um exemplo do questionamento: “O que era mais importante? O paciente ter a experiência de que o analista aceitava e suportava a angústia de suas identificações projetivas, ao mesmo tempo expulsivas e comunicativas, por meio do impacto emocional causado (ou recebido)? Havia um perverso convite à corrupção?” (p.134). No capítulo seguinte “Afeto, somatização e simbolização”, vamos discutir com o autor aspectos da transferência e contratransferência. Uma nota especial para o capítulo “Skype análise”, à época, incomum, hoje tão necessária. O artista adianta e pré-agoniza o que será. Há dez anos ele inovou a maneira de atendimento que, hoje, é uma norma mais que necessária.

Na terceira parte do livro, Montagna nos mostra as “Interfaces” de suas reflexões, pensamentos aprofundados, explicando o porquê do título, Alma migrante, uma vez que na psicanálise o termo alma quase não é mencionado. “Porque o inconsciente […] é atemporal e ignora contradições. As coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo, é possível ser um e muitos, em muitos lugares e em lugar nenhum” (p. 253).

Para quem conhece o autor não é difícil saber o quanto da arte, da filosofia e da sociologia estão presentes. Para quem não o conhece, fica a indicação necessária. Quem, senão o psicanalista receptivo e acurado, citaria o Livro dos Haicais:

                     não pises este lugar

                     ontem de tarde havia, por aqui,

                     vagalumes (p.65)

 

Para depois escrever: “Uma pessoa entra em minha sala de atendimento com passos curtos, decididos, sem pressa ou afobação, apenas deixando no ar a impressão de alguma ansiedade” (p. 68). Literatura. Sim, seus textos são literários. A literatura não é só inspiração, é raciocínio, elaboração. É um debate interno e externo. O autor discute consigo mesmo e conosco.

Em “Interação psicanalítica com paciente terminal”, temos um artigo sensível e corajoso por tratar de um assunto relativamente pouco explorado: “Vencendo muita hesitação, decidi dizer que, se ela estava viva, o que tinha para fazer da vida era viver. Viver para quê?, me perguntou. Ousei dizer que ela podia falar, pensar” (p. 199).

Aqui, neste livro, são vários os exemplos de trocas verbais e não verbais, desenroladas ao longo de sessões fora do setting. Ainda sob o efeito dos textos posso dedicar, ao leitor, um hai-kai atribuído a Moritake (1452):

 

                     Penso: as flores caídas

                     Retornam aos seus ramos.

                     Mas não! São borboletas.

 

Assim nos sentimos depois da leitura de Alma migrante. Não somos flores caídas, não somos os mesmos depois da leitura, nos transformamos, saímos borboletas. É preciso atravessar todo o caminho para conhecê-lo. A travessia, neste caso, é feita de inúmeras maneiras, de muitos lugares, a todos e a nenhuns lugares. Eu poderia continuar num sem fim de exemplos do domínio psicanalítico e literário do Dr. Plinio Montagna. Mas prefiro encerrar com o convite: leia o livro, reflita e divague. Deixe-se levar pelos lugares etéreos do pensamento. Afinal, a alma é migrante.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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