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64
Ter remoto Pensamentos em tempos pandêmicos
ano XXXII - Junho de 2020
163 páginas
capa: Augusto de Campos
  
 

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Resumo
Comentado por Silvana Rea e Daniel Kupermann


Autor(es)
Cristina Perdomo Perdomo
é psicóloga, psicanalista, coordenadora geral do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (gestão atual). Foi Membro da Diretoria do Instituto Sedes Sapientiae, gestão 2013-2018.


Daniel Kupermann
é psicanalista, membro da Formação Freudiana (RJ), doutor em teoria psicanalítica (UFRJ) e autor dos livros Transferências cruzadas. Uma história da psicanálise e suas instituições (Revan) e Ousar rir. Humor, criação e psicanálise (Civilização Brasileira).

Silvana Rea Rea
é membro efetivo e diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Graduada em Cinema e Psicologia, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pelo IP-USP, autora de artigos e dos livros Transformatividade: aproximações entre psicanálise e artes plásticas e Pelos poros do mundo.



Notas

1.Versos de Pedaço de mim, de Chico Buarque.

2.Green, El pensamiento clinico, 2014.

3.Green, <>, 1988.

4.Roussilllon, 2012.

5.Roussillon, 2013.

6.Green, 1988; Roussillon, 2008.

7.Green, 2000.

8.Freud, 1923/1969.

9.Green, 2000.

10.    Roussillon, 2008.

11.    Green, 1988.

12.    Roudinesco, 2008, p. 728.

13.     Stoller, 2014.

14.    Mesmo hoje muitos analisandos, ao contrário dos cidadãos que ocupam nossos ministérios, ainda pedem permissão para falar palavrões ou obscenidades durante as sessões.



Referências bibliográficas

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____. (1923/1969). Luto e melancolia. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago. p. 275-291.

Green A. (1988). Narcisismo de vida, Narcisismo de morte. São Paulo: Escuta.

____. (2000). As cadeias de Eros. Lisboa: Climepsi.

____. (2014). El pensamiento clinico. Buenos Aires: Amorrortu.

Roudinesco E. (2008). A parte obscura de nós mesmos. Rio de Janeiro: Zahar. Ebook.

Roussillon R. (2008). Traumatisme primaire, clivage et liaison primaires non symboliques. In Agonie, clivage et symbolisation. Paris: PUF.

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____. (2012). As condic?o?es da explorac?a?o psicanali?tica das problema?ticas narci?sico-identita?rias. In ALTER?- Revista de Estudos Psicanali?ticos, v. 30 (1) 7-32.

____. (2013). Teoria da simbolização: a simbolização primária. In SaviettoB.B.; Figueiredo L.C.; Souza, P. (Orgs.). Elasticidade e limite na clínica contemporânea. São Paulo: Escuta.

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____ (1913). Ontogênese dos símbolos. In Psicanálise II. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

____. (1926). O problema da afirmação do desprazer (progressos no conhecimento do sentido de realidade). In Psicanálise III. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

____. (1928). Elasticidade da técnica psicanalítica. In Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

____. (1933). Confusão de língua entre os adultos e a criança. Idem.

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____. (1922/1940). A cabeça de medusa. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 18. Rio de Janeiro: Imago.

Green S. (2000). Le cadre psychanalytique et son intériorisation chez l'analyste. In Green, A.; Kernberg, O. L'avenir d'une désillusion. Paris: P.U.F.

Lacan J. (1966/1998). Kant com Sade. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Marcuse H. (1978). Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar.

Winnicott D. W. (1958/2000). Memórias do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago.


 

 




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 DEBATE CLÍNICO

Um corpo de angústia

A body of anguish
Cristina Perdomo Perdomo
Daniel Kupermann
Silvana Rea Rea

Camilo é experiente em análises, me conta logo, com certa suficiência, já na sua primeira entrevista. Vários analistas têm passado por ele (e não o contrário), uns por pouco tempo, outros por um pouco mais. Nenhum "conseguiu fisgá-lo". Com quem esteve por mais tempo foi durante a sua infância, lá pelos 6 ou 7 anos. Sua mãe o levou para fazer "ludo-terapia", assim como também levou a seu irmão, dois anos menor do que ele. "Mas essa analista não conta, não foi escolhida por mim".

Possivelmente eu seria mais uma das analistas entrevistadas. O que motiva, no manifesto, seu pedido de consulta é que "não conseguem engravidar". Várias tentativas e nada. A fala oscila do singular "ela" (referindo-se à sua mulher) ao plural "nós" sem que Camilo possa perceber a evitação do "eu". Ele está fora, numa posição de relato no qual se inclui nas margens, mas se alguém não consegue algo (engravidar), certamente não é ele.

Muita arrogância e prepotência. As entrevistas prosseguem... Um dia Camilo chega descontrolado... Teve um acidente logo na esquina do consultório... "Vinha pensando sei lá em quê, possivelmente distraído", e não viu o farol vermelho.

Pois é... E tinha certeza de que a distração fora dele... Esta vez não consegue encontrar a fórmula para dividir com alguém algo seu, a responsabilidade é toda sua. O mundo tem suas leis, e às vezes não se alinham com as dele. Iniciamos a análise.

Os primeiros meses transcorrem com o eixo preponderante da "tarefa de engravidar". Suas falas carregam sempre arrogância e desprezo.

Oscila entre falar de seu desejo de filho, trocando pelo "desejo dela" de filho. Afinal, a quem imputar o desejo que lhe mostra sua falha? Queixa-se dos procedimentos, "ter que transar por encomenda", esse não é seu estilo e por isso às vezes falha. O fracasso não é dele, é da metodologia escolhida. "Onde já se viu ter ereções forçadas" ou "ter que transar quando a fêmea está em período fértil! Isso é para animais".

Em transferência também aparece o "incômodo da metodologia", ter que falar por encomenda, em dias e horários estipulados, onde a temperatura nem sempre é a ideal.

Sua vida sexual, com sua mulher e com outras parceiras, é intensa. Contada, por momentos, com excesso de detalhes. A intimidade de seus encontros fica posta num ato de exibicionismo. Exibicionismo de masculinidade, exibicionismo do Kamasutra, imagens de centenas de posições que parece conhecer à perfeição. Não há vínculo amoroso com essas mulheres, são "parceiras de prazer", o importante é o prazer, "tudo está permitido, sempre e quando ela também goste". Registro que, mesmo nas entrelinhas, há alguma consideração pela parceira de turno. São amigas ocasionais, funcionárias do jornal onde trabalha, mulheres que conhece na rua.

Não sai com prostitutas. Não aceita pagar para ter sexo. O sexo é sempre prático e muito técnico. Técnicas praticadas com esmero, mas não sem intensidade, e sempre com resultados admiráveis, tanto para sua parceira como para ele. "Gozar até a última gota". Sua lista de mulheres é extensa e diversa: mulheres sofisticadas ou pobrezinhas, intelectuais ou superficiais, todos os gostos e tamanhos.

Os travestis são um capítulo à parte... Deboche, nojo, sadismo. Tinha na sua adolescência passeios de carro pelas avenidas de São Paulo, em companhia de colegas, onde simulavam parar o carro, e quando "esse fantoche se aproximava ríamos da cara dele e partíamos". Os fantoches assustam, despertam curiosidade, desejo?

No começo de uma sessão disse exultante: "Bravo! Mulher prenha!!! Agora a curtir o mundo sem transas monitoradas." Durante os meses de gravidez não há quase relações sexuais do casal. Mas Camilo continua com sua "sexualidade mundana". "Só uma mentalidade burguesa exalta a família e a monogamia".

Nasce seu primeiro filho, Antônio, o que é motivo de grande ambivalência. Se por um lado a missão foi cumprida com sucesso, por outro há uma criança que depende e dependerá dele por muito tempo. Isto o aterra pela amarração que significa, mas também pelo seu próprio desamparo. Demonstrações de ternura, mas muita rivalidade. "Quem manda sou eu, ele terá que obedecer". Antônio é um nome interessante, "Il bello Antônio", pena que fosse também o nome de seu sogro, já falecido.

Camilo não gosta da família da sua mulher... "Que tédio, são todos muito chatos!" Não gosta de ninguém. Sobretudo de um cunhado, roteirista de novelas com bastante sucesso, de quem fala que só escreve "merdas", para um público "sem cérebro" que "baba ovo". Esclareço que Camilo também é um escritor, com alguns prêmios conquistados.

E nasce Silvia pouco tempo depois. Se bem nos primeiros momentos se desconcerta com a chegada de uma menina, logo sente uma profunda ternura. Teme que Antônio se ressinta com a chegada da irmã. Camilo se pergunta se há algo, no fato de ter tido uma filha mulher, que o leve a gostar mais dela do que do Antônio.

Não gosta de trocar as fraldas de Silvia. Não gosta de higienizar e olhar a genitália. Tampouco gostava de trocar as fraldas de Antônio, sentia certo "rechaço por esse corpo exposto".

Com Antônio o trato é rude, o educa muito severamente. "Nada de moleza. A vida é dura e mais vale que entenda isso logo". À medida que Antônio cresce as exigências para com ele aumentam. Tem que ser brilhante, o melhor aluno, o mais forte, o mais popular.

Sua mulher, Mariana, é uma executiva com alto cargo numa multinacional, bastante dedicada à sua carreira e que deve ausentar-se, às vezes, por longos períodos, por encargos de seu trabalho. Camilo claramente critica a falta de dedicação ao lar, que mascara uma "medida comparativa" com seu próprio trabalho e seus rendimentos econômicos.

Se a casa funciona é pelas empregadas que ele fiscaliza. Sua mulher "não sabe fazer tarefas de mulher". Não sabe cuidar da casa, não sabe se arrumar, não é bonita e não é boa na cama. Às vezes pensa em se separar... mas nunca com muita convicção. Não leva isso a uma forma mais profunda de questionamento sobre o casamento.

Os filhos o incomodam na sua "concentração", já que ele trabalha a maior parte do tempo em casa. Decide-se então pela saída para um escritório. Nada acontece e sua "concentração" parece piorar a cada dia. Sua capacidade de produção está em declínio. A análise é diretamente involucrada como causante dessa descompensação. Pensa que, seguramente, essa descompensação será transitória, dando lugar a futuros grandiosos, com reconhecimento universal, tanto na literatura como na escultura.

Camilo, além de trabalhar semanalmente para um jornal, escreve contos curtos, alguns romances também. Seu estilo luxurioso tenta aproximar-se de João Ubaldo Ribeiro em A casa dos budas ditosos, onde vale o "faço tudo o que me dê na cabeça, não quero saber de limitações", ou de Sade, a quem muitas vezes evoca. Sempre fica aquém, quando se compara com esses autores admirados, mas não sem um reconhecimento de editoras e algumas premiações. Seus contos têm pontos autobiográficos que o estimulam a continuar escrevendo. "É uma maneira de me narrar em pedaços".

Também faz incursões na escultura, sempre com ferros retorcidos, arames farpados, pregos, latas. Algumas vendidas para empresas, que as colocam decorativamente à entrada de prédios, lhe rendem um bom dinheiro. São esculturas enormes, que demandam um grande esforço de criação e fabricação e têm em comum algo agressivo, que ele chama de "arrojado e inovador". Certamente também formas de se narrar.

Estamos num processo em que a agressividade aparece sem disfarces. Banca o "supermacho", briguento e destemido na rua, no trânsito, nos encontros sociais. Por momentos funciona, especialmente com sua mulher, em um mau-trato que beira a humilhação e o desprezo. Por momentos, abuso de álcool e, em ocasiões, maconha e cocaína. Cita Sade: "Os homens são déspotas quando estão em ereção. Eu sou um déspota em ereção permanente". Enquanto reina o fantasma do super acho, os objetos são só objetos e o prazer é só narcisista.

Nesse momento Camilo está com 46 anos. Ele se organiza nesta agressividade (quase perversa), destituindo o lugar do outro, como forma compensatória no reequilíbrio temporário de seu sistema psíquico. A agressividade e o montante de sadismo para com o objeto funcionam como uma conduta evacuativa e defensiva, colocando um dique ao esvaziamento, mas que corre o risco permanente de colapso. Quando consigo deslocá-lo desta posição aparece uma depressão que pré-anuncia a catástrofe e sua inércia perante a catástrofe.

Seus relatos tomam outro rumo...

Camilo teve, em vários momentos da sua vida, dúvidas sobre sua identidade sexual, expressas de diferentes maneiras: tamanho de seu pênis, número de conquistas amorosas, rechaço intenso por homossexuais afeminados, curiosidade e deboche de travestis...

Ao entrar num banheiro sem compartimentos, não pode deixar de olhar para o pênis de outros e compará-lo "metricamente" com o seu. Teme ser descoberto e mal interpretado nesse olhar. Quando sua comparação milimetrada o favorece, experimenta um sentimento de triunfo voluptuoso, que o reconforta. O pênis é sua grandeza! O que por outro lado deixa evidente sua entrada temerosa e pouco confiante na competição por ele estabelecida.

Aos poucos vamos entrando no labirinto... Os temores de extravio, de quebra de articulações que reasseguram, de pensamentos que se amontoam sem ordem, elevam a "sua temperatura" e fazem com que coincidamos, a pedido de Camilo, em passar a três sessões semanais. É um momento fértil, embora angustiante. O aumento do número de sessões surge após um pedido explícito de medicação, seguido de uma pergunta sobre a necessidade de voltar ao psiquiatra para ser "adormecido". Estar acordado e ver o farol em vermelho assusta. A travessia tem riscos, mas decide enfrentar, embora com um pé no freio.

Sei que não é fácil arcar economicamente com o aumento de sessões, mas Camilo pensa que é vital neste momento e eu concordo.

Também volta ao psiquiatra, mas resiste a tomar a medicação indicada por ele "para não atrapalhar, pois preciso ter condições de pensar". Por outra parte ressurge uma velha animosidade com o psiquiatra, "que não escuta quase nada e já vai receitando o veneno".

O ponto mais difícil do manejo transferencial. A palavra funcionando em ato. A palavra degradada do comunicacional para o evacuativo, em puro processo de descarga, quase um grito. A positivação da presença do analista, a transferência agressiva erótica, a corporeidade de corpos. O discurso se endereça a mim, com clara referência a minha pessoa, sonhos e falas sem pudor, falas descarnadas, que operam do lado do Eu com a intenção de provocar intensas reações em mim, implodindo meu pensamento. O fundamental aqui é que não há uma percepção de que é o colapso de seu próprio pensamento que está em jogo.

O exercício de sua fala é vivido como uma demonstração de poder. Proclama que se eu não cedo a seus convites "é porque você fica agarrada a uma ética babaca e ultrapassada, mas seguramente morrendo de vontade". Contenção explícita da minha parte, mostrando que se por um lado ele supõe que ganha, efetivamente ele perde. Desta forma não podemos pensar nem avançar no labirinto. O risco da travessia é grande, mas também necessário.

Os conteúdos eróticos sempre foram falados no divã. Nunca houve um olhar para trás ou um movimento corporal de aproximação. Terminada a sessão, Camilo levantava, evitava meu olhar e estendia sua mão falando até a próxima.

A transferência agressiva cede pouco a pouco... E se antes meu corpo e minha pessoa estavam em seu discurso violento, a violência volta agora contra si mesmo, em um corpo que denuncia o essencial: o excesso. Seu corpo que não é seu, o corpo que à revelia diz algo, numa tentativa enlouquecida de descarga.

A angústia segue agora um caminho diferente. O "buraco" difuso, amorfo, obscuro e, sem dúvida, temido. O espaço analítico agora pensado desde o vértice da reativação de elementos regressivos e eróticos; o espaço analítico produtor de autotraumatismos (J. Laplanche).

Aparece uma nova sintomatologia que o aflige enormemente: seu ânus lateja, são sensações anais desconhecidas, não experimentadas antes; seu ânus se contrai involuntariamente, à revelia. Isto o perturba ao extremo, estas sensações perturbam sua vida relacional e de trabalho. O importante é que Camilo pode transformar em indício esse signo e começar a interrogar-se sobre ele. A voltagem é elevada e o risco de curtos-circuitos também. Risco de fragmentação egoica expresso como "tenho medo de não parar e de ficar louco" e "Minha cabeça não para, é uma explosão". Os pensamentos aceleram, não param, e o corpo sente uma necessidade imperiosa de movimento e evacuação. O ânus fala. Lembranças vagas e sofridas, fatos dos que não tem certeza, fiapos de trama simbólica tentando dar conta de um novo processo.

Rapidamente um fechamento: "Sou um homossexual, sou um homossexual reprimido, sempre fui um homossexual. Como não percebi isso antes!" Esta sentença que "aparentemente" desarticula suas convicções sobre si mesmo, penso que está ao serviço da defesa, fechando as possibilidades de avançar. Com a convicção de que o fantasma da homossexualidade obtura um processo que começa a se delinear, proponho que, antes de dar um nome para o que lhe acontece, continuemos o trabalho.

Não é homossexualidade reprimida o que se simboliza no ânus. O ânus evita o transbordamento que ele chama de loucura. O fantasma se transforma em marca no corpo.

A violência vai se ligando às lembranças de intrusão materna, aos momentos em que sua mãe o invadia contando sobre as noites de alcova. O marido bêbado, o corpo rejeitado com nojo, o ato sexual consumado com os dentes apertados. Em Camilo sentimentos desencontrados de pena, de curiosidade, de ódio, de medo. Ela, Joana, o violenta pelos ouvidos, um orifício que não pode tampar. Como isto se processa nos nossos diálogos? Estarei violentando como revanche por ter sido violentada com sua fala? Os momentos de tensão transferencial foram difíceis, longos e intensos.

A mãe de Camilo, a quem ele se refere pelo nome, Joana, está hoje velha, dependente e demandante. Camilo lembra que sua mãe era uma mulher extremamente bela, sedutora, e por momentos provocativa com os homens. Ele a olhava... mas também a protegia, só estando a seu lado. Hoje o corpo da mãe lhe produz nojo, repulsa e por momentos a fantasia de morte e decomposição... "Um esqueleto com moscas e vermes". Já não oculta o desejo de que ela morra. Talvez dessa forma possa "guardar a imagem do que ela foi".

Ele soube, pelos relatos da sua mãe, que seu pai era um exibicionista. Camilo lembra a denúncia de uma funcionária, a polícia chegando na porta, o choro da mãe, os vizinhos... sua vergonha. Na piscina, ele e seu pai. Ele na água e seu pai sentado na beira... O calor, o sol e o calção largo. A curiosidade de olhar pelas fendas algumas partes que aparecem mostrando a genitália do pai. O pai mostra o pênis, ele mostra seu traseiro.

O olhar dos outros deixa de ser inócuo para Camilo e se transforma num olhar que "vê seu ânus". Construções paranoicas pseudodelirantes entram em cena: outros homens, percebendo o movimento de seu ânus, reagem excitados levando a mão ao próprio pênis ou olhando para ele de maneira especial, desejosa alguns, assustada outros. Sabem eles de seus desejos homossexuais?

Outros elementos que Camilo tenta encaixar neste complicado tecido. Aos 8 ou 9 anos, numa aula difícil de matemática, com um professor homem, enfia um lápis em seu ânus. "Sinto dor? Talvez prazer? Não posso saber..." Aos 10, uma outra lembrança, com colegas mais velhos. Na saída da escola, numa rua estreita, forçavam um colega da mesma turma de Camilo, "baixavam suas calças e lhe enfiavam os dedos". Todos riam, Camilo também. Pensa que pode "ter sentido medo de que fizessem isso comigo. Ou talvez desejo de ser eu o penetrado". Mas reconhece que, ao mesmo tempo, "queria pertencer ao grupo dos fortes, à turma dos fodões, dos penetradores".

Elemento atual: Perda de matéria fecal na cueca... "sempre fica um resto que acaba sujando a cueca, deve de ser o cu laceado". Assim, rapidamente, todos os caminhos conduzem a Roma... Homossexualismo... Não obstante insisto em que há algo que o transborda, algo que se dispara nele, e que precisa encaixá-lo de alguma forma, mesmo numa nomenclatura, para ter alguma explicação. Sem explicação sente que enlouquece.

A passagem do pênis ao ânus como lugar de exibicionismo, o ânus quebrando seu pensamento, a angústia no corpo, o corpo tomando a seu cargo aqueles elementos inscritos e a possibilidade de transformá-los em enigma. Quando estes elementos não metabólicos o atravessam, Camilo deixa de ser ele, para ser um ânus que palpita, que pulsa, que se mexe, que grita e que começa a falar. Ele é um ânus.

Há uma tentativa desesperada de dar um sentido que fixe e detenha o deslizamento energético. Que represente algo para ele e, como reforço, que represente algo também para os outros, embora ao preço de um pensamento paranoico. O transforma numa mensagem para ele e para os demais. Rigidez de tradução que opera claramente do lado defensivo, fazendo uma leitura sequencial do código: ânus?- pênis?- penetração?- prazer homossexual.

Seu ânus se encarrega (ou é carregado) de algo da ordem da angústia não metabolizável. Se faz necessário mobilizar um processo de apropriação e recomposição de elementos. Camilo fica capturado em um ato que remete a um posicionamento perante o irrepresentável. Podemos pensar, à maneira da compulsão, que há uma aniquilação do sujeito, algo arrasa o sujeito e o aniquila; só lhe resta um ânus como resposta, seu pensamento implode, só tem um ânus, que talvez possa vir a chamar de seu, para pensar.

Continuamos por estes caminhos para que Camilo pudesse pensar e pensar-se. Processo de análise como lugar privilegiado de ativação de representações propiciando também a emergência de elementos não metabolizados, não engastados na trama representacional. A análise se estende por uns nove anos. Momentos de muita angústia no divã, e também na poltrona.

Camilo investe mais em seu trabalho com esculturas, e consegue um espaço numa exposição no exterior. O sucesso o compensa narcisicamente. Trata de realizar, timidamente, aproximações carinhosas com seus filhos, muitas vezes em seu ateliê, propiciando momentos lúdicos para as crianças e para si mesmo. Se surpreende do sabor que têm para ele estas experiências.

Recupera algumas lembranças com seu pai, em que as brincadeiras eram desafiadoras, de adivinhar umas coisas muito complicadas, de caça ao tesouro, de contas e números que deviam resolver rápido. Uma outra imagem de pai. Decide a separação com sua mulher em termos amigáveis. Espera iniciar um relacionamento diferente algum dia, embora não descarte a possibilidade de continuar sozinho pelo mundo. Se sente bem assim. Parte para morar no exterior. Tive, por algum tempo, notícias dele, em geral por cartazes de exposições de que participava e que ele me enviava, sem mais palavras.

Comentário de Silvana Rea
Ó, pedaço de mim, ó, metade exilada de mim[1]

Qualquer processo de análise refere a múltiplas narrativas: aquela que o paciente traz como entendimento de si, as que ficam de fora e todas as outras que, no decorrer do trabalho , são construídas pela dupla. O psicanalista é convocado a escrever mais uma delas, pelas questões que surgem no campo transferencial. E, ao produzir uma escrita associativa e relacional como autor, ele também cria um campo transferencial com o seu leitor, estimulando associações e pensamento clínico[2]. É assim, como leitora, que me insiro neste circuito.

 

* * *

 

Conhecemos Camilo nas primeiras entrevistas, apresentando-se como o centro pelo qual passaram vários profissionais sem sucesso. Chega por meio de uma provocação: a analista conseguiria "fisgá-lo"? Outros falharam. Abalando o narcisismo da analista, ele busca deixá-la acuada pelo desafio ou seduzida pelo desejo de ser suficientemente interessante para tê-lo como paciente. E a posiciona em sua mira: está sendo avaliada. Afinal, a ludoterapeuta que não foi escolhida por ele nem conta, era um nada. Ser escolhido por ele não é para qualquer um. Camilo portanto se apresenta em um jogo de sedução e de poder, que indica o medo e o desejo de ligação. E o faz por meio de uma inversão engenhosa, uma vez que é ele quem joga a isca, ele é um pescador disfarçado de peixe.

A análise tem início quando, aproximando-se do consultório, é surpreendido pelo impacto violento da alteridade. Um acidente de trânsito faz com que se reconheça separado, responsável por ter ultrapassado o limite eu/outro que o sinal vermelho indicava. Um abalo que faz lembrar que o inimigo do narcisismo é a realidade do objeto[3].

Aos poucos surge de forma ambígua a dificuldade para engravidar: de quem é a demanda, quem deseja um filho? E mais, de quem é a falha? Esta, a pergunta que não cala. Inevitável pensar que diferentemente do processo criativo da escrita ou o da escultura, simbolizante porém solitário, para gerar uma criança são necessários dois; um complementar à falta do outro. E como ele recusa ter falha e desejo, e reluta em abrir mão de se sentir ilimitado, localiza o problema no método que lhe impõe a castração no divã e na cama.

Portanto, Camilo se apresenta narrando-se a partir de suas defesas. A ele cabe jogar. Intelectualizar em posição de poder e de superioridade. E construir cenas exibicionistas para a analista, talvez tentando excitá-la com as suas qualidades de amante sem vínculos, mas de prazer garantido. São inúmeras as parceiras de sua "sexualidade mundana" voraz, que quer conquistar o mundo.

Aqui, trata-se do corpo. Há algo que busca falar pelo sensorial e motor que poderia indicar experiências arcaicas clivadas, não integradas, impedidas de se transformarem em um sistema representacional[4]. A longa lista de variadas e descartáveis amantes, neste sentido, poderia mostrar uma repetição em busca de integração, uma busca por apropriar-se de algo apartado, algo que ele não vê de si mesmo, mas no entanto, mostra[5].

Talvez ele não tenha contado com um objeto cuja função simbolizante garantisse seus alicerces diante da intensidade pulsional que, sem contenção ou moldura, lançou mão da clivagem para dar um arremedo de contorno ao transbordamento. Uma defesa que cria a desconexão entre o psíquico (eu) e o não psíquico (outro), e também dentro da própria esfera psíquica, criando algo enquistado. Estratégia eficiente, mas que lacera a subjetividade entre parte representada e parte não representada. Assim, é possível que Camilo, aquele que se apresenta sem falhas, tenha sofrido falhas básicas no processo de construção de si. É possível que algo tenha ocorrido no processo de separação sujeito/objeto, prejudicando a instauração de um espaço simbólico "entre-dois", dificultando a experiência de "terceiridade" que permite o caminho da dimensão especular ao acesso à alteridade[6].

De fato, sabemos que o outro, por seu estatuto não-eu, é sempre traumático. Pela problemática de Camilo, a possibilidade desse encontro, com o reconhecimento do objeto e o desejo por ele, pode representar uma ameaça ao equilíbrio e exigir proteção. Outra estratégia é tornar o objeto funcional para seu exercício sexual quase aditivo. Assim, ele garante que haja relação, mas como ela é sem envolvimento, garante também que não haja falta. Um tipo de sexualização que mantém a integridade do eu porque o outro é um simulacro que não provoca imprevisto?- como o acidente automobilístico que o surpreendeu ao se aproximar da analista?-, uma vez que se está na dimensão do mesmo[7].

 

Por isso também sua esposa, executiva em cargo de poder, fica prenha como um animal, desumanizada, dessubjetivada e desqualificada. Apresentada pelo negativo, ela não é mulher, não sabe ser mulher, na casa e na cama. Mas é ela quem dá à luz Antônio. Para Camilo, o bell'Antonio.

No filme de Mauro Bolognini, Marcello Mastroiani é Antonio, que deixa as mulheres "como gatas no cio", convictas de que o poder sedutor de sua beleza o torna o amante perfeito. Mas trata-se de um ideal impossível de atingir; para ele, sexo só com prostitutas ou criadas. Com as "mulheres-anjo" ele é o menino vulnerável de contato físico casto, feito de beijos, e de dormir de mãos dadas. Sua fragilidade o aprisiona entre atender o desejo feminino que ele provoca e sustentar o lugar que lhe é exigido pelo pai, que precisa dos atributos do filho como suporte identitário.

Camilo se debate internamente entre aspectos dos personagens de Bolognini: Antonio e o pai. Talvez se identifique com seu filho recém-nascido, vulnerável na necessidade vital do outro, de quem ainda não pode se separar. Mas o contato com o próprio desamparo e dependência é insuportável e o leva a tomar a criança como alimento narcísico: ele deve ser "brilhante, o melhor aluno, o mais forte, o mais popular". O seu Antônio tem que ser bello para que Camilo mantenha-se psiquicamente organizado. Como o pai do filme, que cumpre seu dever de maschio morrendo nos braços de uma prostituta, está encarcerado em uma trama mortífera, na qual a sexualização é usada defensivamente para sustentar o sentido de ser.

Aqui encontramos um espelho que só reflete uma imagem de eu ideal, depositário da idealização da onipotência e da perfeição infantil[8]. Impedido de abandonar o objeto e de efetuar o luto deste narcisismo sob pena de provocar uma perda do eu, Camilo se encontra em clausura. Por isso, diferentemente do bell'Antonio, ele não transa com prostitutas. Ao pagar reconheceria o estatuto separado e autônomo da alteridade, tendo recebido algo que desejava e não possuía. E se colocaria como desejante, lugar que evita ocupar a qualquer preço. Ademais, ao propor o jogo da sedução oferecendo-se à fantasia alheia, ela retira de Camilo o poder de atribuir as regras da encenação por meio da qual ele excita o desejo do outro. Ainda, o pagamento à profissional do sexo evidenciaria o aspecto clivado que o faz, como ela, mestre da prática sexual sem ligação, técnica e muito eficiente. Evidenciaria que há um menino em sofrimento na performance do maschio exibicionista.

Portanto, aquilo que aparece como o aspecto predatório voraz e sexualizado esconde, ao mesmo tempo que revela, a problemática narcísica: a ameaça de intrusão e de dispersão, o medo do abandono, da dependência em relação ao objeto, de se sentir vulnerável. Perigos que o impedem de ter relações próximas ou de intimidade, e o levam a se proteger em encontros com características masturbatórias[9].

Inevitável reconhecer que há uma destrutividade neste jogo de dominação, mas ela fica mais explícita no período de crise criativa, uma inibição nas possibilidades simbolizantes e prenúncio do colapso que estava por vir.

É fato a eficácia da clivagem em deixar certas partes exiladas. Mas elas não se conformam e pressionam para se fazer integrar, exigindo um esforço defensivo extenuante, uma vez que o retorno do clivado pode ser desestruturante[10]. Em algum ponto do processo analítico as defesas se abalam. E pelas fendas surge o desamparo, trazendo com força o ódio à necessidade do objeto. Agora, Camilo não joga com a sedução; há a franca hostilidade no campo transferencial, momento difícil para a analista, a quem tenta invadir e violentar com palavras. Violenta antes de correr o risco de ser violentado? O funcionamento pelo qual centrava sua atividade no campo corpóreo e motor agora tem uma torção; a ação passa às palavras, palavras-ato provocando reações contratransferenciais intensas[11].

À beira do colapso, Camilo começa atuações "quase perversas". Ataca a esposa, a analista, se excede no uso de drogas. Agarra-se em Sade na tentativa de se costurar narrando-se "aos pedaços", de suturar o tecido roto que esgarça cada vez mais. Para salvar o seu sentido identitário, cola-se em Sade no elogio à ereção despótica, pura ilusão de poder. Em Sade, cujos atos, nas palavras de Roudinesco , "não traduzem senão uma trágica impotência de dizer"[12].

Certas defesas perversas podem se organizar em torno do interjogo de hostilidade e desejo sexual em relação ao objeto como meio de proteção à subjetividade ameaçada. São fantasias de vingança colocadas em ato ou em palavra-ato movidas pelo ódio e pelo medo, e que têm como função converter em triunfo adulto algo do traumático infantil que foi vivido passivamente[13].

Mas Camilo reconhece que precisa: da analista, de mais sessões, do psiquiatra. Ele teme precisar, sofre, reluta em reconhecer o outro, tem dúvida se o protegerá ou será invasivo. Ele briga, denigre o objeto, tece fantasias persecutórias. As fendas se alargam e suas mal-edificadas fronteiras se rompem sob a pressão de fortes angústias de fusão, invasão e separação. A alteridade ameaça, "ver o farol em vermelho assusta", como no acidente de trânsito que o fez iniciar a análise.

Marcado pelo funcionamento sensorial e motor, Camilo tenta organizar-se psiquicamente em torno de um ponto concreto: o ânus, buraco por onde seu frágil sentimento identitário escoa. É o lugar escuro do não-representável, do que está "fora de controle"; ele lateja de excitação e de dor. Pelo orifício anal vazam as lembranças esquecidas, os delírios, aquilo que estava sem lugar em sua narrativa: a violência da intrusão materna detalhando noites de alcova, o marido bêbado, o ato sexual consumado à revelia, o pai exibicionista, o choro, a polícia. Lembra da piscina, do calção largo, da curiosidade, do ódio, do medo. Situações que nos ajudam a entender a falta de uma moldura confiável, a falha na estruturação de si, a dificuldade de investir nos objetos, desobjetalizando-os, e a necessidade de exercer domínio sobre eles.

Os conteúdos do traumático seguem: o lápis e os dedos no ânus invertem a posição penetrar e ser penetrado e se ligam à atividade de triunfo sobre as mulheres, algo que já mostrara no jogo de quem pesca e é pescado da primeira entrevista. Pelo orifício anal também escapa matéria fecal. Camilo escorre e tenta se segurar em uma forma identitária qualquer, uma narrativa que o contenha em algum espaço representacional para que não se perca por completo: sou homossexual, sou o fodão, sou... tudo.

Ao longo de anos de "muita angústia no divã e também na poltrona", a narrativa de Camilo encontra outros caminhos. Faz as pazes com seu trabalho criativo e com a analista, compondo nova sutura. À medida que o sucesso profissional e o reconhecimento de seu talento o compensam narcisicamente, algumas ligações amorosas aparecem de forma tênue com os filhos, com o pai e com a esposa, agora ex.

Ele parte sozinho pelo mundo, exila-se por inteiro, concretamente, deixando a família e a analista. Agora, ter um relacionamento diferente do usual apresenta-se como uma possibilidade, ainda que débil. Mantendo a distância protetora, faz-se presente por meio dos cartazes das exposições, sem palavras?- via princeps de ligação no processo analítico. Suas partes exiladas já estariam ditas por meio do processo de representação simbólica pela arte? Ou, enquanto hábil pescador, ele joga a isca certeira para fisgar a analista?

 

Comentário de Daniel Kupermann
O testemunho de um ânus-boca

1. O pavor de Camilo: foi a primeira questão que a leitura do instigante relato de caso intitulado "Um corpo de angústia" me despertou. Uso a palavra "pavor" (Schreck, diz Freud, referindo-se ao afeto traumatizante), e não "angústia", entendendo que para o sofrimento de Camilo contribuem não apenas a "angústia sinal", capaz de acionar defesas neuróticas, mas também a "angústia automática", presente em suas compulsões?- ambas discriminadas por Freud (1926)?- bem como "angústias traumáticas" ou "impensáveis", assim nomeadas respectivamente por Ferenczi (1933) e Winnicott (1958) em sua ampliação do campo da escuta psicanalítica para os sofrimentos de difícil diagnóstico, entre a neurose "grave" e a psicose inequívoca.

 

2. A coragem da analista de Camilo (nossa colega anônima, CA): Nossa CA aceita o convite da seção Debates clínicos de Percurso e nos apresenta um caso bastante difícil?- dificuldade diagnóstica, manejo clínico delicado frente à intensidade de Camilo e mesmo frente aos seus ataques no setting, tensão extrema do campo analítico, impacto da agonia e da presença ruidosa do corpo pulsional do analisando, exigindo grande trabalho de perlaboração da contratransferência. Trata-se, talvez, de um caso de análise interminável para ambos, que permanecem perlaborando as ressonâncias afetivas desse encontro anos depois de encerradas as sessões. Há algo do estilo de Camilo transmitido no relato de sua analista, como se se tratasse aqui de chacoalhar também o leitor/interlocutor. Há algo de ousado na condução dessa análise e também no gesto ético de exibição?- e não de exibicionismo?- da nossa CA (Marcuse, 1978), que convoca nosso pensamento teórico-clínico para além do conforto das concepções instituídas de psicanalisar. Esse testemunho que tivemos o privilégio de ler indicaria alguma coragem também da parte de Camilo?

 

3. O priaprismo: Camilo admira Sade: "os homens são déspotas quando estão em ereção. Eu sou um déspota em ereção permanente". Em sua leitura do mito da Medusa, Freud (1940[1922]) interpreta o efeito de a Medusa transformar os mortais que a encaram em pedra como uma compensação viril, um consolo, o enrijecimento confirmando para o espectador que ainda se acha de posse de um pênis. Porém, se Camilo vive em estado de priaprismo é porque vive a experiência intolerável de um horror que não se reduz à angústia de castração. Daí buscar, como indica Ferenczi (1926) em "O problema da afirmação do desprazer", se livrar desse afeto gozando "até a última gota". Afinal, a virtude diferencial sadiana não é exatamente a onipotência, mas a apatia (cf. Lacan, 1966); esta parece se acenar como ideal para Camilo, que experimenta o sexo como o bom emprego de uma técnica a serviço de um gozo catártico. Menos da ars erotica oriental, mais da compulsão sadiana. A apatia indicaria a Camilo o caminho para a terra prometida do anestesiamento da agonia que dormita em suas entranhas.

 

4. Os "ataques": em determinado momento da análise, Camilo dirige a sua analista investidas sexuais entendidas como uma intensa "transferência agressiva erótica", e sua fala se torna despudorada, crua. A analista se apercebe de que a violência de Camilo ameaça o setting, provocando uma arriscada contratransferência negativa que poderia impedi-la de pensar; fantasia o abandono do tratamento e o alívio decorrente. No entanto, tem sucesso em reassegurar, com auxílio de um efetivo enquadre institucional ,- intercâmbio com colegas, leituras e supervisão?- e da sobrevivência de seu "enquadre interno", a continuidade da análise (cf. Green, 2000). Não seria isso, justamente, o que faltava a Camilo? Um enquadre ambiental que o possibilitasse pensar, sentir e agir, contendo o transbordamento do seu ódio preservando-o, assim, da saída projetiva que alimentou seu núcleo paranoico?

Imagino que a capacidade da analista em suportar os ataques de Camilo e em perlaborar seu próprio ódio foi o que permitiu a Camilo confiar e suportar a despersonalização advinda da regressão em análise, responsável pelo aparecimento de seu eloquente ânus na cena analítica. Lembro da metáfora evocada por Ferenczi (1928) do psicanalista como "João-teimoso", o boneco que suporta as trombadas das brincadeiras infantis, se enverga, mas não perde o prumo.

A última provocação à analista, dirigida ao fato de ela não ceder as suas interpelações eróticas, revela a confissão do desespero de Camilo: "é porque você fica agarrada a uma ética babaca e ultrapassada, mas seguramente morrendo de vontade". Camilo sabe o que é a vontade de morrer. Não seriam seus "ataques" a expressão última das resistências do isso à regressão necessária ao seu processo de análise?

 

5. A obscenidade: Camilo transita pelos confins da experiência do inconsciente, bordeja seus limites. Limites da suportabilidade da angústia, limites do setting, limites da linguagem, limites do corpo. Ao mesmo tempo se empenha no trabalho de análise, aumenta as sessões quando preciso, busca a palavra capaz de dizer o que só seu ânus conseguiu manifestar, quando sua analista conquistou a confiança necessária para permitir sua regressão em análise. Sua boca-ânus evacuava as palavras obscenas que atingiam a analista, feriando-a. Seu ânus-boca expressa a dor de viver em um mundo de interpenetrações sádicas. Mera catarse?

Em "Palavras obscenas", ainda nos primórdios da aventura psicanalítica, Sándor Ferenczi (1911) forçava os limites da regra fundamental convidando seus pacientes a utilizarem os termos populares?- ao invés dos termos técnicos usualmente empregados nas análises daquele tempo[1]?- para se referirem à sexualidade, acreditando assim atingir a potência expressiva máxima da associação livre. Seu projeto era convocar a "outra cena" oculta?- obscena?- ao espaço analítico, acreditando assim resgatar a potência criadora da "linguagem da ternura" (cf. Ferenczi, 1933). Mesmo sabendo não ser possível desenvolver aqui todos os elementos da teoria da linguagem implícita na sua obra, é suficiente dizer que, para o psicanalista húngaro, haveria no sofrimento psíquico uma ruptura da ponte existente entre a obscenidade e a ternura que deveria ser suturada pelo franqueamento da associação livre. Isso porque, na origem da expressão linguageira estaria o corpo pulsional, motor da constituição das relações simbólicas e do sentido de viver, em permanente expansão em direção aos objetos, caracterizando um processo nomeado de "sexualização do universo", ou mais simplesmente "introjeção" (Ferenczi, 1912; 1913).

Exercitando nossa sensibilidade empática, podemos considerar que Camilo buscava palavras que lhe permitissem atribuir algum sentido ao campo afetivo mobilizado pela experiência transferencial. E, graças à sobrevivência e à não retaliação da sua analista, foi possível a regressão?- da boca-ânus efetivamente afásica ao ânus-boca capaz de testemunhar as intrusões traumáticas sofridas. Desse modo, Camilo pôde resgatar junto a sua analista a experiência da ternura vitalizante oculta sob a capa da sua pseudo genitalização.

É mesmo comovente a observação de nossa CA: "os conteúdos eróticos sempre foram falados no divã. Nunca houve um olhar para trás ou um movimento corporal de aproximação. Terminada a sessão, Camilo levantava, evitava meu olhar e estendia sua mão, falando "até a próxima"". Essa preservação do setting, que poderia aparentemente contrastar com o sadismo violento de Camilo e com diagnósticos que poderiam sugerir sua inanalisabilidade, parece mais revelar sua necessidade de regressão na transferência; e, também, a qualidade do suporte afetivo oferecido pela nossa CA.

 

6. As intrusões: na história construída por Camilo encontramos a matriz mais nefasta do acontecimento traumático, o "terrorismo do sofrimento" promovido por uma mãe incontinente (Ferenczi, 1933). Camilo foi eleito o confidente da miséria libidinal de Joana que, segundo perspicaz comentário da analista, "o violenta pelos ouvidos, um orifício que não pode tampar". Joana faz de Camilo a testemunha impotente que não tem como satisfazê-la, e não sabe como protegê-la. Essa situação de inversão nas posições de cuidado nos permite considerar que Camilo sofreu experiências traumáticas precoces o suficiente para comprometer sua vivência primária de "amor objetal passivo", obrigando-o a manejar um ambiente hostil e a identificar-se com objetos de tonalidade persecutária. Seu pai é exibicionista notório. Uma cena evocada na análise sugere que o pai lhe mostra sedutoramente o pênis. Camilo parece mimetizar esse sintoma na vida adulta (seu "priaprismo"), como tentativa de tornar ativa a experiência de passividade/impotência experimentada. Na infância, a saída parece ter sido introduzir objetos no ânus?- no seu e no dos outros?- esse orifício que se pode tampar. As custas, porém, de um delírio paranoide de que os homens poderiam ver seu ânus por baixo das roupas. Sua homofobia parece, como indica sua analista, encobrir o horror à passividade primária, testemunhado por suas contrações e relaxamentos esfincterianos. Camilo vive com o "cu fechado", como diz a expressão popular universalmente conhecida, camuflado pelo semblante de super macho priápico.

 

7. A narrativa em pedaços: a escrita libertina, bem como as esculturas grandiosas transformando objetos metálicos pontiagudos são consideradas por Camilo formas de se narrar "em pedaços". Assim como a língua ferina e as emanações anais. Camilo e sua analista nos instigam a pensar o estatuto da narrativa na clínica, particularmente dos casos-limite, nos quais os fragmentos são o indício possível. Em contrapartida, nos recordam que é preciso considerar que, para além do primado das representações, uma escuta efetiva não se faz apenas com as orelhas, exigindo a participação de todos os poros que tornam o analista permeável ao testemunho daquele que sofre.

 



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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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