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Resumo
Resenha de Melanie Klein, Melanie Klein: autobiografia comentada, Org. Alexandre Socha, São Paulo, Editora Blucher, 2019, 220 p.


Autor(es)
Marina F. R. Ribeiro Ribeiro

é psicanalista, professora doutora no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Com Elisa M. U. Cintra, publicou o livro Por que Klein? (Zagodoni, 2018); é autora de outros livros e artigos. Coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea, LipSic (IPUSP e PUC-SP).




Notas

1.Apenas o apêndice foi traduzido por Paulo Sérgio de Souza Jr.

2.W. R. Bion. Attention and interpretation. Londres: Karnac, 1970/2007.

3.A. L. Scappaticci. A autobiografia de Wilfred Bion. Psicanálise, uma atividade autobiográfica. Jornal de Psicanálise, 51(95), 241-254, 2018.

4.A autobiografia foi escrita um ano antes da morte de Melanie Klein, sendo que ela já lutava contra um câncer.

5.Klein perdeu seu pai quando tinha dezoito anos, dois anos antes da morte do irmão. Seu pai era 24 anos mais velho que sua mãe e, na autobiografia, ela relata que ele já estava senil alguns anos antes de morrer. Após a morte do irmão Emmanuel, Klein casou-se com seu melhor amigo, Arthur Klein, inviabilizando em razão do casamento e do nascimento dos filhos a ambição de estudar medicina e psiquiatria.

6.E. M. U. Cintra & M. F. R. Ribeiro. Por que Klein? São Paulo: Zagodoni, 2018.


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 LEITURA

Melanie Klein: autobiografia comentada [Melanie Klein: autobiografia comentada]

Melanie Klein: a commented autobiography
Marina F. R. Ribeiro Ribeiro

Apresentar um livro é sempre algo desafiador e de considerável responsabilidade. Considero que os textos são sempre autorais, mesmo aqueles que são predominantemente teóricos. E aquele que escreve a resenha de um livro o faz inescapavelmente a partir de suas impressões e ressonâncias. O livro em questão é um convite à reflexão de como vida e obra estão inexoravelmente entrelaçadas, sendo que apenas um delicado e respeitoso trabalho de aproximação é capaz de iluminar algumas facetas desse amálgama.

Primeiramente, penso ter sido uma excelente ideia traduzir e publicar um texto kleiniano ainda inédito em língua portuguesa, tanto pelo seu caráter histórico quanto pela presença afetiva que emana nas linhas e entrelinhas. Alexandre Socha, organizador do livro, nomeia sua introdução de "Melanie Klein, personagem de si mesma", introduzindo o leitor a uma instigante reflexão sobre o gesto autobiográfico: "o debruçar-se sobre as próprias memórias como um modo de apegar-se à vida, bem como de despedir-se dela" (p. 16). O paradoxo emocional e o tom nostálgico capturam o leitor nessa apresentação, o ethos rememorativo, como escreve Socha.

Destaco que o livro apresenta a cuidadosa e implicada tradução de Elsa Susemihl , psicanalista e estudiosa da obra de Melanie Klein e de Wilfred Bion. Encontramos ao longo do texto notas que esclarecem e orientam o leitor e que demostram seu conhecimento da obra kleiniana, atestando o valor das traduções feitas por psicanalistas.

A autobiografia de Klein está acrescida do comentário de quatro psicanalistas e ainda, no apêndice, há o testemunho de James Gammill sobre o seu contato como supervisionando de Klein entre os anos de 1957 e 1959, mesmo período em que os fragmentos autobiográficos foram escritos. Entre os comentadores, encontramos duas autoras nacionais (Liana Pinto Chaves e Izelinda Garcia de Barros) e dois internacionais (Robert D. Hinshelwood e Cláudia Frank), que juntos compõem de forma equilibrada e harmônica o livro.

Do texto inédito de Robert D. Hinshelwood, eu gostaria de destacar alguns pontos que considero pertinentes a questões da psicanálise contemporânea. Em primeiro lugar, a ousadia de Klein ao sustentar uma mudança de foco no trabalho de análise, da questão energética freudiana, para os afetos e suas angústias. Em segundo, sua problematização quanto à precisão da interpretação, sugerindo que o analista observe cuidadosamente o efeito de sua fala dentro da sessão de análise, levantando a questão da verdade emocional que se mobiliza e se procura traduzir no ato da interpretação. Se o analista for bem-sucedido em sua capacidade de colocar em palavras a angústia, de construir uma narrativa, é observável a mudança que se segue à interpretação: a criança passa a brincar livremente e o adulto, a pensar. O analista precisa ser capaz de capturar em palavras a dor da ansiedade. Como sinônimo de fantasias inconscientes, encontramos no texto de Hinshelwood a expressão "dramas narrativos", referindo-se, talvez, ao vasto campo de pesquisa sobre a narratividade na sessão, a capacidade narrativa exitosa da dupla analítica, a linguagem de êxito ou linguagem bem-sucedida, promovendo transformações no campo analítico.
 

A impressão é que Klein transferiu seu método de observar as narrativas do brincar das crianças para a observação das narrativas dos processos de pensamento de um adulto. É como se a "sala de brincar" passasse a ser o próprio espaço mental (p. 102).

 

No texto de Liana Pinto Chaves destaco a proximidade com minhas breves impressões descritas no final desta resenha: a autobiografia como um acerto de contas amoroso com seus objetos internos e externos e como uma reconciliação com a mãe, aproximando vida e morte. Chaves nos lembra que a autobiografia forma um mesmo conjunto de reflexões com o artigo publicado postumamente, intitulado "Sobre o sentimento de solidão".


Cláudia Frank traz importantes dados históricos sobre a trajetória dos textos e do pensamento kleiniano na Alemanha, além de uma erudita apresentação de alguns autores pós-kleinianos e seus desenvolvimentos conceituais.


Izelinda Garcia de Barros enfatiza a importância da experiência com a maternidade e de como esta marca a proposta teórica e clínica de Klein. Destaca que a construção teórica kleiniana é fruto das trocas conscientes e inconscientes entre Sándor Ferenczi e Klein, entre 1912 e 1918, autor pouco citado em sua obra devido a questões políticas. A obra de Ferenczi sofreu uma condenação pelo silêncio, ficou por muitos anos banida dos institutos psicanalíticos. Na autobiografia Klein escreve que tem muito a agradecer a Ferenczi e que ele era um homem de talentos incomuns e tinha o traço de um gênio.
O apêndice escrito por James Gammill é um relato de sua experiência pessoal como supervisionando de Klein. Comenta que se sentia à vontade com a "Sra. Klein" quando apresentava seu material clínico, o que nos leva a pensar que ela era acolhedora e continente com os psicanalistas próximos a ela. Ele relata que Klein lhe fazia contribuições precisas e consistentes, especialmente quanto ao timing das interpretações e a escolha de palavras, enfatizando a importância de o analista conhecer o vocabulário do paciente e sua forma única de se expressar. Gammill escreve que para Klein era importante que um psicanalista fosse dedicado de maneira autêntica e profunda à psicanálise; e aqui encontramos uma preciosidade, um comentário de Klein sobre o trabalho de Bion:

 

O que é que ela [uma determinada analista] estava querendo dizer, então, quando afirmou que compreendia perfeitamente o que o Dr. Bion queria comunicar na conferência dele? Frequentemente tenho de reler várias vezes o texto das conferências do Dr. Bion antes de começar a captar alguma coisa daquilo que ele tem a dizer. Tenho a impressão de que ele trabalha com algo novo em psicanálise, mas não tem serventia alguma fingir que é fácil e evidente (p. 199-200).

 

É manifesto nesse comentário o respeito e a admiração que Klein nutria por Bion, seu paciente entre 1945 e 1953, que depois tornou-se um dos kleinianos mais geniais, conjuntamente com Hanna Segal, Herbert Rosenfeld e Money-Kyrle. Klein reconhece nessa fala citada por Gammill que Bion postulou um novo paradigma para a psicanálise. Seus textos epistemológicos foram publicados após a morte de Klein em 1960. Entretanto, ainda em seu livro de 1970, Atenção e interpretação, Bion se considerava um kleiniano, anos depois de ter formulado um pensamento original e autoral, provavelmente num gesto de gratidão e reconhecimento à sua analista.


Para finalizar a resenha do livro e capturada pelo ethos rememorativo da proposta do organizador Socha, relato algumas ressonâncias pessoais geradas pelo texto autobiográfico de Klein.


Breves impressões da autobiografia de Melanie Klein
Será a escrita autobiográfica a elaboração momentânea de uma vida? Chegando ao fim da trajetória, nós nos remetemos ao começo, na busca por aquilo que inspirou o caminho, o sentido encontrado no a posteriori do percurso. Obra e vida inevitavelmente se entrelaçam, sendo produto da nossa racionalidade essa distinção insustentável. A narrativa autobiográfica pode ser lida como um sonho, assim como uma sessão de análise . Inspirada por esse vértice, teço alguns breves comentários. A autobiografia de Klein seria o testemunho de um processo de elaboração da experiência da proximidade da sua morte? Uma despedida amorosa?


O sentimento de nostalgia que transborda pelas margens do texto autobiográfico de Klein seria a busca pelo sentido do que a moveu na vida? Sentido alcançado no a posteriori e que implica um estado de lucidez daqueles que construíram recursos psíquicos para se deparar com a verdade emocional de suas vidas e com o árduo enfrentamento de suas perdas.


A leitura dessa breve autobiografia nos remete à construção de uma cena psíquica, uma cena onírica, na qual é possível se despedir da vida com amorosidade e sentimento de gratidão. Os vínculos amorosos podem ser compreendidos como um objeto bom constituído de cenas de trocas afetivas gratificantes, memórias em sentimentos. Já não há tempo para discórdias ou para os difíceis trabalhos do ódio. É preciso partir, carregando o que há de mais precioso na mente, as cenas amorosas que constituem nossos objetos bons. Em 1959, Klein escreveu:

 

Mas penso na minha infância como uma infância com uma boa vida familiar e daria qualquer coisa para tê-la de volta por um só dia; nós três, meu irmão, minha irmã e eu sentados em volta da mesa, fazendo nosso trabalho escolar, e os muitos detalhes de uma vida familiar unida (p. 42).

 

Klein descreve idilicamente a cena dos irmãos juntos na mesa fazendo os deveres, uma cena amorosa que permaneceu vitalizada em sua mente. O estudo autodidático é uma marca da família. Klein indubitavelmente foi uma autodidata admirável, uma mulher além de seu tempo.


A leitura da autobiografia de Klein inspira-me à seguinte compreensão: morrer entrelaçada aos objetos bons significa morrer tranquila, sem a predominância de estados paranoicos de mente. A morte parece ser representada na autobiografia como um encontro com essas cenas amorosas que constituem o frágil tecido psíquico, sempre ameaçado por intensas turbulências. A morte ou sua proximidade pode ser uma experiência psíquica avassaladora. Como se despedir da vida de forma vitalizada e amorosa? Parafraseando Donald Winnicott: quero estar vivo quando morrer. Penso que Klein oferece ao leitor, generosamente, o testemunho da intimidade do processo de elaboração da sua própria morte e de sua vitalidade, como Socha escreve na introdução, o paradoxo entre apegar-se e desprender-se.


É algo relativamente comum diante da proximidade do fim da vida a experiência de que vamos, de forma imaginária, encontrar a mãe, quase como se voltássemos para o lugar de onde partimos, ou que a lembrança desse vínculo primordial que nos conduziu para a vida agora pudesse nos conduzir suavemente para a morte. Nas duas grandes cesuras de uma vida, nascer e morrer, temos a mãe ao nosso lado. A mãe real ao nascer e a mãe imaginada ao morrer. Klein escreve sobre morrer quase sem angústia, e talvez ela se inspirasse nesse momento na morte de sua mãe para que ela também tivesse uma experiência próxima. Tons de idealização estão presentes na sua escrita, mas talvez para o enfrentamento da cesura da morte esse sentimento seja necessário e apaziguador: "Nunca imaginei que alguém pudesse morrer do jeito que ela morreu, completamente de posse de suas faculdades mentais, calma, sem nenhuma ansiedade e, de forma alguma com medo ou relutante em morrer" (p. 54).


Klein descreveu com maestria os trabalhos psíquicos do luto e a criatividade que emerge da mais intensa das dores: a de perder entes queridos. Nossa autora escreveu que na elaboração dos processos de luto a pessoa perdida torna-se um objeto interno bom. Nesse texto autobiográfico ela descreve isso de forma surpreendente, aproximando a morte dos seus dois irmãos que tiveram a vida interrompida precocemente: sua irmãzinha Sidonie, quando Klein tinha quatro anos; seu irmão Emmanuel, quando ela tinha vinte anos . Escreve sobre a profunda admiração que nutria por eles e de como ela tinha imagens vivas dos irmãos na sua memória: "A doença do meu irmão e sua morte precoce é mais um, entre os outros lutos na minha vida, que ainda permanece vivo em mim" (p. 48).
É bela a passagem na qual Klein escreve sobre como o irmão Emmanuel, que ela tanto admirava, fonte das suas inspirações, mistura-se em sua mente com o filho morto, Hans, com o filho vivo, Eric, e o neto Michael, descrevendo a plasticidade da experiência estética dos objetos na mente:

 

Meu filho mais velho, Hans, que morreu aos 27 anos de idade quando praticava alpinismo, tinha uma grande semelhança com meu irmão, particularmente em seus primeiros anos, assim como acho que também Eric tem. Penso, também, que meu neto, Michael, tem algo de sua aparência, mas posso estar enganada porque todas essas figuras tinham muito em comum nos meus sentimentos (p. 51).

 

Compreendo o objeto bom como uma reserva de memórias afetivas, um conjunto de cenas e de narrativas, um atravessamento de distâncias atemporais . Uma cena psíquica que funciona como uma tênue âncora na turbulência da transitoriedade da vida, favorecendo, mesmo que de forma breve, um reconhecimento de que somos nós, na turbina do tempo, que encontramos algo da pequena Melanie, uma invariância que se conecta com a Sra. Klein ao final de uma tumultuada, dolorosa e criativa vida.


O texto é o testemunho de uma mulher que teve a ousadia de sofrer a própria dor e de acreditar que isso é o que transforma, o que é verdadeiramente importante. O analista precisa encontrar o ponto de urgência, o ponto de maior angústia no aqui e agora da sessão ou da vida, "tocar" a ansiedade, como escreve Hinshelwood e ser capaz de construir uma narrativa bem-sucedida.


Ao ler a autobiografia, tenho a impressão de encontrar uma carta de despedida à vida, de alguém que parte com o sentimento de realização do que foi possível e de amorosidade pelos seus objetos internos e externos, com suas plásticas e únicas narrativas psíquicas. Klein, personagem de si mesma, como nomeia Socha.


Klein está de mãos dadas com seus objetos queridos e amados para morrer na companhia deles. Está nostálgica, generosa, entristecida, mas tranquila com suas realizações e com a continuidade do seu legado... "Dentro dos limites da capacidade humana, sinto que fiz algo que talvez no futuro possa se provar ter sido uma grande contribuição para a compreensão da mente humana" (p. 81).


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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