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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
63
Fronteiras e travessias
ano XXXII - Dezembro 2019
201 páginas
capa: Liana Cardoso Soares
  
 

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Resumo
A autora escreve uma carta a Freud, comentando sobre a situação atual da Psicanálise no Brasil, especialmente na universidade.


Palavras-chave
Psicanálise no Brasil, Psicanálise na universidade, ensino da Psicanálise, história da Psicanálise


Autor(es)
Cassandra Pereira França França

é professora doutora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde atua como docente de graduação e pós-graduação do Departamento de Psicologia, desenvolvendo pesquisas sobre temas ligados a teoria e clínica psicanalítica e também violência sexual infantojuvenil. Membro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP)?- GT: Psicanálise e Clínica Ampliada. Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (dirigindo a seção Minas Gerais da associação). Possui doutorado e pós-doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenadora do curso de especialização em Teoria Psicanalítica da UFMG. Coordenadora do Projeto CAVAS/UFMG (Projeto de pesquisa e extensão com crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual). Autora e organizadora de diversos livros.




Notas

1.Esta informação encontra-se originalmente no artigo "Les lettres de Freud en tant que source historique", publicado na Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, vol. II, 1989, citado em R. Mezan, As cartas de Freud, p. 83-99.

2.Brasil: Psicanálise e Modernismo (verbete).

3.A carta encontra-se guardada na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

4.M. A. Moretzsohn e M. H. Teperman, Uma carta, uma história.

5.A partir deste ponto, discorremos sobre a Era das Escolas, apresentando, resumidamente, a linha de raciocínio de Renato Mezan, desenvolvida no livro O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise, de 2014, ganhador do Prêmio Jabuti, 2015 (1o lugar na categoria Psicologia, Psicanálise e Comportamento).

6.R. Mezan, O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise, p. 31.

7.R. Mezan, op. cit., p. 32.

8.E. Roudinesco, História da psicanálise na França: a Batalha dos Cem Anos 2: 1925-1985.

9.S. Freud, Sobre o ensino da psicanálise nas universidades.

10.    S. Freud, op. cit., p. 218.

11.    S. Freud, op. cit., p. 217-219.

12.    Uma explicação sobre a escalada de sucesso das pesquisas acadêmicas em psicanálise no Brasil, acompanhada de um verdadeiro boom na explosão de programas de pós-graduação, pode ser encontrada em R. Mezan, Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões, in O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise, p. 528-575.

13.    Faço menção ao título do precioso artigo "O ouvido com que convém ouvir", de Leclaire, no qual o autor faz uma série de críticas aos riscos da escuta estereotipada que alguns analistas podem oferecer a seus clientes.

14.    Ver S. Bleichmar, Paradoxos da constituição sexual masculina, p. 185-195.

15.    Sobre o desenvolvimento desse tema, deixo ao leitor a recomendação do livro El desmantelamiento de la subjetividad: estallido del yo, de S. Bleichmar.

16.    S. Freud, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

17.    Para acompanhar a bela discussão sobre essa temática, é necessário recorrer à leitura do livro Las teorías sexuales en psicoanálisis: qué permanece de ellas en la práctica actual, de S. Bleichmar.

18.    R. Mezan, Freud: a conquista do proibido, p. 63.

19.    R. Mezan, op. cit., p. 63.



Referências bibliográficas

Bleichmar S. (1993). Paradoxos da constituição sexual masculina. In Nas origens do sujeito psíquico: do mito à história. Porto Alegre: Artes Médicas.

Bleichmar S. (2010). El desmantelamiento de la subjetividad: estallido del yo. Buenos Aires: Topia Editorial.

Bleichmar S. (2014). Las teorías sexuales en psicoanálisis: qué permanece de ellas en la práctica actual. Buenos Aires: Paidós.

Brasil: Psicanálise e Modernismo. (2000). In Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento526666/brasil-psicanalise-e-modernismo-2000-sao-paulo-sp. Consultado em: 15/2/2020. Verbete de enciclopédia.

Freud S. (1905/1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. VII, pp. 121-252). Rio de Janeiro: Imago.

Freud S. (1918-1919/1996). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. XVII, pp. 217-219). Rio de Janeiro: Imago.

Leclaire S. (1968/1986). O ouvido com que convém ouvir. In Psicanalisar (pp. 7-24). São Paulo: Perspectiva.

Mezan R. (2000). Freud: a conquista do proibido. São Paulo: Ateliê Editorial.

Mezan R. (2002). As cartas de Freud. In Interfaces da psicanálise (pp. 83-99). São Paulo: Companhia das Letras.

Mezan, R. (2014). O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

Moretzsohn, M. A. & Teperman, M. H. (2014). Uma carta, uma história. Jornal de Psicanálise, 32(4), 261-263.

Roudinesco, E. (1988). História da psicanálise na França: a Batalha dos Cem Anos 2: 1925-1985. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.





Abstract
The author writes a letter to Freud, elaborating upon the state of Psychoanalysis in Brazil with emphasis on its insertion in undergraduate and graduate studies


Keywords
Psychoanalysis in Brazil, Psychoanalysis at the university, teaching of Psychoanalysis, history of Psychoanalysis

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 TEXTO

Sobre destinos nem tão funestos: o ensino da psicanálise nas universidades

On not so ominous fates: teaching Psychoanalysis in universities
Cassandra Pereira França França

Belo Horizonte, 9 de julho de 2017.

Caro dr. Sigmund Freud,

Como tem passado?

Estive na casa do senhor algumas vezes, mas como não o encontrei e preciso muito desta conversa, farei isso por carta mesmo. Peço desculpa pela minha ousadia em me dirigir ao senhor e, mais ainda, pela esperança de que possa ter algum tempo para responder às aflições de uma professora universitária de um país tão distante como o Brasil. Por incrível que pareça, acho que nem mesmo o senhor chegou a imaginar que a psicanálise fosse se enraizar tanto em solo brasileiro, a ponto de colocar-nos no rol dos países onde a clínica psicanalítica tornou-se uma carreira possível e até mesmo promissora, permitindo a tantos profissionais sobreviverem, exclusivamente, de seu exercício?- fato no qual nossos colegas europeus muitas vezes custam a crer. Além disso, era impossível imaginar a multiplicidade de institutos de formação analítica que brotariam por aqui e a seriedade com que levariam adiante aquele voto de "um próspero futuro", enviado pelo senhor nas poucas e breves cartas escritas aos profissionais brasileiros na década de 1920.

A despeito de toda a minha angústia, também ouso lhe escrever por saber o quanto o senhor sempre foi afeito a cartas. Aliás, talvez nem saiba que a estimativa é de que tenha escrito cerca de 20 mil cartas. Um historiador alemão, Gerhard Fichtner, fez um levantamento até 1989 e informou-nos[1] que, até então, eram conhecidas exatamente 4 899 cartas do senhor, das quais 3 123 haviam sido publicadas e 1 776 eram ainda inéditas. Infelizmente, uma grande parte dessas cartas desconhecidas deve ter se perdido ou extraviado nas inúmeras migrações, de país ou continente, que seus correspondentes tiveram de fazer pelo mundo afora. No entanto, as poucas enviadas aos brasileiros, felizmente, estão muito bem guardadas e podem ser lidas por todos. Vou lhe contar como aquelas breves palavras de entusiasmo pela produção científica brasileira foram significativas a ponto de impulsionarem o movimento psicanalítico brasileiro. Aliás, essa é uma característica do nosso país: com o pouco que temos, fazemos muito. Mas tudo foi tão rápido que vou lhe contar num piscar de olhos.

As ideias do senhor começaram a circular por aqui por volta de 1924 e, no ano seguinte, já influenciavam a clínica brasileira. Em 1928, foi lançada a primeira revista de psicanálise redigida no Brasil, da qual o senhor até chegou a receber um exemplar?- não sei se o guardou nem sei bem se, em meio a tantas cartas, o senhor vai se lembrar das que escreveu aos brasileiros. Mas posso mencioná-las rapidamente.

Em 18 de novembro de 1926, o senhor escreveu a primeira carta ao dr. Durval Marcondes:

 

Meu prezado Senhor! Infelizmente não domino o seu idioma, mas graças aos meus conhecimentos da língua espanhola pude deduzir de sua carta e do seu livro que é sua intenção aproveitar os conhecimentos adquiridos em psicanálise nas belas-letras, e, de um modo geral, despertar o interesse de seus compatriotas por nossa ciência. Fico sinceramente grato pelos seus esforços, desejo-lhe muito sucesso e posso assegurar-lhe que achará rica e recompensadora em revelações a sua continuada associação com o tema. Cordiais saudações. Seu Freud.

 

Logo no começo do ano seguinte, em 10 de janeiro de 1927, o senhor se dirigiu a outro psiquiatra da capital paulista, muito famoso naquela época, o dr. Osório César:

 

Prezado colega! Agradeço-lhe a remessa do seu trabalho ‘Memórias do Hospital de Juquery' ao qual pude ter acesso pelo menos no idioma francês. Caso seja sua intenção nos remeter a tradução para o alemão do seu novo trabalho, posso prometer-lhe que o mesmo será recebido de bom grado em nossa revista Imago. Causa-me grande satisfação a prova de interesse que a nossa psicanálise vem despertando no distante Brasil e apresento-lhe os meus protestos de estima e consideração. Seu Freud.

 

Naquele ano de 1927, o psiquiatra paulistano dr. Durval Marcondes, considerado o precursor do movimento psicanalítico no Brasil, empenhava-se na implantação das primeiras cátedras brasileiras de psicologia, psicanálise e higiene mental na Universidade de São Paulo (USP), onde acabou criando um grupo de educadores sanitários que trabalhavam com atendimento clínico infantil e, de forma inovadora, imagine só, em moldes interdisciplinares.

A iniciativa e o empenho do dr. Durval Marcondes em organizar a primeira coletânea de artigos brasileiros sobre psicanálise foi coroada pelas felicitações enviadas pelo senhor, no ano seguinte, em 27 de junho de 1928:

 

Caro colega, a visão da nova Revista Brasileira de Psicanálise me deu muito prazer. Que ela tenha um próspero futuro. O efeito seguinte deste envio foi que eu comprei uma pequena gramática portuguesa e um dicionário alemão-português. Durante estas férias, quero chegar ao ponto de poder ler pessoalmente a revista. Com meus agradecimentos e saudações. Seu Freud.

 

Logo depois dessas férias, em 11 de agosto de 1928, houve outra carta para o mesmo psiquiatra:

 

Prezado colega. Agradeço pelo seu minucioso relatório sobre os acontecimentos esperançosos no seu país. O Dr. Porto Carrero também me escreveu a respeito e eu repito para o senhor o pedido que enderecei a ele. Gostaria que os senhores elaborassem em conjunto uma exposição sobre estas ocorrências, destinada à Revista Internacional de Psicanálise, e a enviassem ao presidente Dr. Eitingon, para que, assim, o interesse pelo nosso novo grupo brasileiro possa ser despertado. Saudações, Seu Freud.

 

Ah... Já ia me esquecendo de contar para o senhor algo que pouca gente sabe: nos últimos anos do século XX, foi desenvolvida uma extensa pesquisa sobre a chegada das ideias do senhor aqui em nosso país. A proposta era preparar a exposição Brasil: Psicanálise e Modernismo[2], que foi realizada em São Paulo, em 2000. E qual não foi a surpresa, quando, durante esse trabalho, foi localizada em minha cidade, professor, Belo Horizonte (Minas Gerais), uma carta do senhor agradecendo um presente que recebera do Brasil, um livro intitulado O dinheiro na vida erótica (1937). Esse livro foi-lhe enviado pelo autor, Karl Weissmann, filho de uma família austríaca que imigrou para o Brasil em 1921, tentando escapar das ameaças da guerra que pairavam sobre a Europa. Weissmann, um autodidata, tinha notícias do trabalho do senhor e expressou nesse livro, que lhe deu de presente, a sua compreensão da psicanálise. Ele interessava-se pelo hipnotismo, praticava-o para grandes públicos, passou pelo Rio de Janeiro, trabalhou aqui no nosso estado, na Penitenciária de Neves, e escreveu inúmeros livros. Na carta[3] que o senhor dirigiu a ele, no dia 21 de março de 1938, constam as seguintes palavras:

 

Mui prezado senhor, boas notícias são sempre bem-vindas, especialmente agradáveis em tempos como estes. Com grande interesse fiquei sabendo de sua atividade em prol da psicanálise em parceria com o Dr. Pereira da Silva, e, com grande pesar, da morte prematura do prof. Porto Carrero. Eu até leio espanhol com facilidade, mas a semelhança com a sua língua apenas torna confusa minha tentativa de entender algo do conteúdo. Várias vezes o tentei sem sucesso e com o presente livro não me saí melhor. Espero que o estudo da psicanálise lhe traga cada vez mais satisfação à medida que o senhor se aprofunde. E, de coração, desejo-lhe um belo sucesso. Seu mui dedicado, Freud.

 

Dessa carta, podemos tirar dois aspectos deveras intrigantes: primeiro, o fato de termos descoberto que o senhor acompanhava, com atenção, o desenvolvimento da psicanálise no Brasil; segundo, o comprometimento interno mesmo com os seus interlocutores anônimos, ainda mais, em um momento extremamente delicado?- dez dias antes, Adolf Hitler havia feito a sua entrada triunfal em Viena, pois a Áustria havia sido anexada ao Reich nazista. Marie Bonaparte já se encontrava em Viena, tentando convencer o senhor a deixar o país. Seu filho, Martin, já havia sido detido pelos soldados nazistas[4]. Como o senhor pôde ter cabeça para escrever essa carta a Weissmann? Apesar do meu espanto, isso aumenta a minha esperança de receber uma resposta.

Bem, mas enquanto o senhor desistia de entender o português somente com uma gramática e um dicionário em riste, a nova linguagem da psicanálise já frequentava os bancos universitários. O dr. Durval Marcondes já era assistente de psicologia social (1934-1938) e professor de psicanálise e higiene (1934-1937) no então Instituto de Higiene e Saúde Pública da USP. No entanto, foi somente em 1951 que foi constituída, oficialmente, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (onde estão arquivadas as cartas do senhor) e, em 1954, foi criado o primeiro curso de especialização em psicologia clínica, na Faculdade de Filosofia da USP. Mas, professor, não lamente, nem por um minuto, ter tido dificuldades com o português. É uma língua muito difícil mesmo e, afinal, se o senhor não tivesse a língua germânica como língua materna, seus escritos talvez nem tivessem despertado tanto interesse nos países da Europa Central e no estrangeiro, onde o prestígio da medicina germânica era enorme naquela época e as fronteiras da psicanálise coincidiam com as da área cultural germânica: Viena, Berlim, Budapeste. A psicanálise iria prosperar, gradativamente, não fosse o massacre nazista, que, vendo a psicanálise como uma "ciência judaica e maléfica", fez com que tivesse de abandonar sua terra natal e se exilar em vários recantos do mundo.

Com isso, professor, a psicanálise logo perdeu sua homogeneidade, uma vez que os psicanalistas que foram para Inglaterra, Estados Unidos, Argentina ou para outros países latino-americanos foram forçados a dialogar com diferentes realidades sociais, culturais e clínicas, criando, assim, estilos nacionais e mesmo "escolas"[5]. Só para o senhor ter uma ideia dessas mudanças nos ventos da história psicanalítica, o melhor exemplo que posso dar foi o que aconteceu aqui na nossa vizinhança, na Argentina: antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, já era o país mais adiantado da América Latina e, mais, onde o peronismo havia criado um sistema de assistência médica em que havia espaço para a saúde mental. Assim, ao receber imigrantes como Heinrich Racker e Marie Langer, produziu-se um viés psicanalítico que deu à psicanálise argentina visibilidade no cenário internacional, marcada, justamente, por dois traços típicos dos pampas: a atenção aos fatores sociais e políticos na organização psíquica e a tendência a estender os limites da clínica para além dos consultórios. Infelizmente, a Argentina também foi palco de outra diáspora freudiana, dessa vez provocada pelos generais da ditadura, que se encarregaram de desencadear outro movimento de emigração de psicanalistas, fazendo com que as ideias psicanalíticas argentinas se expandissem para os quatro cantos do mundo, inclusive para o Brasil, trazendo uma contribuição importante para as universidades e os institutos de formação.

Bem, mas voltando ao que eu dizia sobre a quebra que o nazismo provocou na hegemonia centro-europeia no mundo analítico, teve início, então, o que é chamado pelos estudiosos de era das escolas. Nesse período, entre 1943 (quando aconteceram as grandes controvérsias de Londres) e 1980, seus discípulos duelaram, cada um querendo provar que era o mais fiel seguidor do senhor e acusando o outro de traição ao seu legado. A briga foi tão feia que, a partir de então, foram demarcadas rígidas fronteiras internas na psicanálise e instalada entre elas uma verdadeira Guerra Fria, à maneira daquilo que se via na política mundial. Assim se estruturaram quatro correntes:

 

- a escola kleiniana (com base na Inglaterra e forte influência na América Latina);

- a psicologia do ego estadunidense (a psicanálise berlinense/vienense transplantada para os Estados Unidos pelos fugitivos do nazismo e misturada com acréscimos de Heinz Hartman e outros);

- a escola britânica das "relações de objeto" (grupo independente inglês, cujos principais nomes são William Ronald Fairbairn, Michael Balint e Donald Winnicott);

- a escola lacaniana (na França, onde os discípulos de Jacques Lacan foram congregados em torno da bandeira do "retorno a Freud").

 

Pois é, mas o senhor me desculpe, pois só estou tocando nesse assunto, que deve aborrecê-lo sobremaneira, para que o senhor possa acompanhar o raciocínio lógico, causador da minha angústia, uma vez que os efeitos da era das escolas ainda chamuscam os nossos estudantes de psicologia. Aliás, nem falei ainda que, como o senhor mesmo esperava, a psicanálise acabou sendo ministrada, prioritariamente, nos cursos de psicologia. Assim, as paixões e intolerâncias existentes dentro e fora de cada uma dessas escolas, infelizmente, são refletidas nas cátedras de psicanálise de todas as universidades do país. O estudante fica atônito ao descobrir que os psicanalistas não falam a mesma língua, que chegam ao absurdo de dizer que a genuína psicanálise é aquela que ensinam (a mesma que, provavelmente, orientou a análise pessoal do professor e as supervisões que fez). Mas como as divergências não são escancaradas, o aluno acaba não entendendo o porquê de distintas teorias apresentadas em sala de aula (como se fossem simples prolongamentos das teorias freudianas) resultarem em deduções, às vezes, contrárias às do senhor. Com muito custo, entendem que os kleinianos privilegiam o último Freud; os lacanianos, o primeiro Freud?- sendo que, em ambos, há o recurso a modalidades da experiência psicanalítica que o senhor pouco explorou: a análise infantil, em Melanie Klein, e a clínica das psicoses, em Lacan. Nossos alunos observam, intrigados e confusos, que a elaboração conceitual desses autores desloca o centro da gravidade: para a angústia e a posição depressiva em Klein; para a cadeia significante e a simbolização no caso de Lacan.

É uma pena, professor, que não haja tempo suficiente, nas grades curriculares das universidades, para o aluno ter a chance de estudar os autores das principais escolas de psicanálise e enxergar quais são os pontos de convergência e de divergência entre elas. Sabemos que isso só será possível depois de ele ter estudado cada uma das escolas por muitos e muitos anos. Aí, sim, verá que as convergências se apoiam nos quatro pilares que sustentam o edifício dessa ciência:

 

[...] em sua metapsicologia, elas preservam a descoberta básica de Freud?- o inconsciente?- e a ideia fundamental do conflito psíquico; em sua teoria do desenvolvimento, mantêm a ideia essencial de uma permanência do infantil no psiquismo adulto; em sua teoria do funcionamento normal e patológico, operam com a categoria basilar de defesa; e na forma de conduzir o processo analítico, trabalham com os conceitos de transferência e de resistência.[6]

 

E o aluno também conseguirá ver que, apesar das convergências, há diferenças cruciais:

 

[...] há sempre uma tópica, mas não é indiferente nomeá-la em termos de Id/Ego/Superego, ou em termos de Real/Imaginário/Simbólico, ou ainda, em termos de mundo interno ou posições. Há sempre uma força motriz inconsciente, mas não é indiferente caracterizá-la como sexualidade, desejo, angústia, necessidade de adaptação. Há sempre o emprego da transferência, mas não é indiferente manejá-la deste ou daquele modo...[7]

 

Porém, antes que eu despeje toda a minha angústia no senhor, que vai ficar achando que o futuro da nossa ilusão de docência em psicanálise na universidade vai ser a de enxergá-la sempre enclausurada numa verdadeira Torre de Babel, tenho de contar-lhe as boas-novas. Elizabeth Roudinesco, uma historiadora muito respeitada por gregos e troianos, tem registrado, passo a passo, a "abertura generalizada para o pluralismo" que vem acontecendo na psicanálise francesa, desde 1970, referindo-se tanto à difusão de variadas correntes do pensamento psicanalítico como ao surgimento de novas associações e de grupos abertos aos participantes de várias sociedades[8]. Essa abertura, sem dúvida alguma, vai gerando efeitos reverberativos pelo mundo afora. Na Argentina, já existem grupos compostos de psicanalistas de diferentes escolas que se reúnem para estudar teorias e discutir casos clínicos; em São Paulo, em muitas faculdades e institutos de formação analítica, diferentes correntes teóricas já convivem com civilidade; até mesmo no meu estado, Minas Gerais, já existe uma iniciativa de congregação, em um Fórum Mineiro de Psicanálise, de onze instituições psicanalíticas?- o senhor acredita??- que querem conversar sobre as dificuldades da psicanálise.

Temos de ter fé que, se acaso a intolerância na sociedade dos porcos-espinhos diminuir, um dia nossos alunos poderão ter liberdade de acesso à produção teórica de toda uma geração que começou seu percurso analítico nos anos 1950 e da qual fazem parte: Piera Aulagnier, André Green, Jean Laplanche, Conrad Stein, Jean-Baptiste Pontalis, Guy Rosolatto, Joyce McDougall, entre outros. Para todos esses autores, os anos 1960 foram os da constituição de sua própria perspectiva, que incorpora o que absorveram de Lacan e a crítica à qual submeteram as suas doutrinas. O conjunto dos trabalhos desses autores é o que se convencionou chamar de psicanálise contemporânea.

Mas, dr. Freud, antes mesmo de tomar a decisão de escrever-lhe, tentei dialogar, silenciosamente, com o senhor por meio daquele artigo, aparentemente ingênuo, que foi escrito para uma revista húngara, em 1918, na época do V Congresso Psicanalítico Internacional em Budapeste, em que lhe pediram para se expressar acerca das reformas na educação médica. Seu título, em húngaro, lançava uma questão atual e que deve ser relançada com frequência: "Deve a psicanálise ser ensinada na universidade?"[9].

Em sua argumentação, o senhor conclui que "a universidade só teria a ganhar com a inclusão, em seu currículo, do ensino da psicanálise"[10]. No entanto, para chegar a essa conclusão, o senhor partiu de quatro premissas que eu gostaria de comentar e de fazer contrapontos a elas a partir da realidade da psicanálise aqui no Brasil. As quatro premissas foram as seguintes:

 

A inclusão da psicanálise no currículo universitário seria olhada com satisfação por todo psicanalista [...] Ao mesmo tempo, é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo [...] No que concerne às universidades, a questão depende de decidirem se desejam atribuir qualquer valor à psicanálise, na formação de médicos e de cientistas. Em caso afirmativo, o problema seria então saber como incorporá-la à estrutura educacional vigente [...] Esse ensino, na verdade, só pode ser ministrado de maneira dogmática e crítica, por meio de aulas teóricas; isso porque essas aulas permitirão, apenas, uma oportunidade muito restrita de levar a cabo experiências ou demonstrações práticas.[11]

 

Dr. Freud, o que vou comentar a seguir vem da minha observação durante os meus quase trinta anos de docência em psicanálise nas universidades. Quero deixar claro que as opiniões que vou expressar são particulares, e sei muito bem que outros colegas podem pensar de forma diferente. Retomemos, então, cada uma dessas premissas que o senhor elencou.

 

1. "A inclusão da psicanálise no currículo universitário seria olhada com satisfação por todo psicanalista"

 

Caro dr. Freud, nem todos os psicanalistas olham com bons olhos a psicanálise na universidade, acreditando que a formação nobre, legítima, de um psicanalista tenha de ser "intramuros", isto é, apenas dentro dos muros das instituições de formação psicanalítica. Eu concordo, sim, que é apenas nas instituições psicanalíticas que se pode ter bem instalado o tripé que sustenta a formação: a teoria, a análise e a supervisão. Mas acredito que é importante não nos esquecermos que o caminho passa pela universidade e que o curso de psicologia tem tudo para ser a grande porta de entrada de novos pensadores para a psicanálise: críticos, audazes, cheios de ideais. É o local onde os jovens buscam, majoritariamente, o encontro com a clínica e onde podem receber ensinamentos em diversas disciplinas que são fundamentais para uma futura formação em psicanálise em algum instituto de formação. Refiro-me aqui à riqueza que pode advir de disciplinas como psicologia do desenvolvimento, psicopatologia e psicologia social?- todas fundamentais para uma compreensão mais ampla do indivíduo em sua interação com a sociedade. E é graças ao sucesso dos primeiros ensinamentos que um aluno decide, ou não, encaminhar-se para o estudo da psicanálise. Se deixarmos os alunos no vácuo, sem entenderem o que estamos transmitindo, se assumirmos uma postura arrogante, narcísica, superior, de quem detém o conhecimento, deixando os alunos com a sensação de ignorância, abandonarão seu projeto de vir a ser um psicanalista e procurarão outra via de escuta do seu fazer clínico. Portanto, as instituições de formação dependem, direta ou indiretamente, da performance didática, do pelotão da frente, que, se não for bem-sucedido, pode transformar os ursos de psicologia do nosso país em local de desencontro com a psicanálise.

Na segunda premissa registrada nesse texto, o senhor disse:

 

2. "Ao mesmo tempo, é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo"

 

Desculpe discordar, professor, mas acho que hoje em dia, apesar da falta de consenso sobre o papel da academia na difusão da psicanálise, uma coisa é certa: todos os psicanalistas do país estão bebendo água da fonte que jorra das pesquisas acadêmicas realizadas nos diversos programas de pós-graduação que possuem áreas de concentração em pesquisa psicanalítica. Toda a minha geração, formada nos anos 1980, sabe muito bem quanto apanhamos ao tentar estudar a metapsicologia freudiana, nas páginas da Standard Edition, lendo Freud atravessado pelas traições das traduções do alemão para o inglês e do inglês para o português. E o pior de tudo: sem a ajuda da sistematização da obra freudiana que foi feita por pensadores do quilate de Joel Birman, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Renato Mezan, Luís Claudio Figueiredo, Luiz Roberto Monzani, Jurandir Freire Costa, entre tantos outros que implementaram a pesquisa em psicanálise nas universidades brasileiras. Pesquisas que poderiam ser agrupadas em grandes categorias: teses sobre questões metapsicológicas, teses sobre questões de psicopatologia, teses sobre fatores operantes no processo terapêutico, teses sobre a interface psique/sociedade.[12] Ou seja, uma verdade precisa ser reconhecida: a teoria psicanalítica encontrou lugar para se repensar e se deu muito bem nos programas de pós-graduação; é impressionante a qualidade de muitas dissertações e teses defendidas pelo país nas mais diversas academias. Se repararmos bem, há um predomínio de livros escritos por professores sendo estudados pelos clínicos simplesmente porque um professor aprende em sala de aula que, quanto mais se esforçar para falar de modo claro, menos o seu raciocínio será interrompido por perguntas aflitas. Assim, ao escrever, consegue imaginar quais perguntas lhe seriam feitas pelos "alunos imaginários" e vai dosando o texto no ritmo das possíveis respostas.

A terceira premissa que o senhor lançou foi:

 

3. "No que concerne às universidades, a questão depende de decidirem se desejam atribuir qualquer valor à psicanálise, na formação de médicos e de cientistas. Em caso afirmativo, o problema seria então saber como incorporá-la à estrutura educacional vigente"

 

Há um consenso entre os professores de psicologia de que é fundamental a presença da psicanálise nas grades curriculares da psicologia; entretanto, alguns acham que sua presença é expressiva demais e ocupa mais cátedras do que deveria, enquanto outros, como eu mesma, acham que não dá nem para o cheiro o que é visto por lá. No entanto, professor, eu defendo, veementemente, o princípio de que devemos privilegiar na graduação o ensino da metapsicologia freudiana, que engloba os conceitos fundamentais do edifício teórico que o senhor criou (o inconsciente, o recalcamento, as pulsões, as fantasias, as instâncias psíquicas). O aluno precisa dominar esses conteúdos antes que lhe sejam apresentadas as outras escolas de psicanálise. Se não for assim, geramos um a-historicismo deformante, que deixará sequelas duradouras. Entretanto, professor, nem sempre isso é possível: em algumas universidades, a forte transferência com alguma instituição de formação analítica ou com alguns teóricos, com quem são muito identificadas, pode levar um professor a apresentar, precipitadamente, uma corrente de pensamento que o aluno não tem ainda maturidade para acompanhar. Tal despreparo pode levar o aluno a tomar o ensino como um axioma, uma verdade incontestável que deixará uma margem mínima para questionamentos. Diante disso, o aluno pode se deixar apassivar, identificando-se com esse discurso que ele mal entendeu, passando apenas a ecoá-lo e a ouvir com o ouvido com que convém ouvir[13], fechando-se em seus solilóquios ou ele desiste de vez de ser psicanalista.

 

4. "Esse ensino, na verdade, só pode ser ministrado de maneira dogmática e crítica, por meio de aulas teóricas; isso porque essas aulas permitirão, apenas, uma oportunidade muito restrita de levar a cabo experiências ou demonstrações práticas"

 

Caro dr. Freud, essa premissa de que o ensino da psicanálise teria de passar somente por aulas teóricas foi completamente derrubada pela prática, pois são os atendimentos clínicos nos diversos estágios supervisionados, instalados nos cursos de psicologia há mais de quatro décadas, que dão aos alunos "o gostinho da clínica", exatamente como pretendiam sentir quando buscaram a faculdade. Mais ainda, a experiência de estágio é a bússola que avalia a eficácia dos conteúdos ministrados nas cátedras de psicanálise. É na sessão clínica que o aluno vai reconhecer se é capaz, ou não, de identificar os conceitos da teoria e da técnica psicanalítica. Ávidos por conhecer o funcionamento do método psicanalítico, querem sentir a psicanálise viva e, quando apresentamos os clássicos casos clínicos que funcionaram como andaimes para a construção teórica que o senhor edificou?- o caso Hans, o caso Dora, o Homem dos Ratos, o Homem dos Lobos?-, eles nos interrompem, a todo momento, querendo saber como seria a condução da técnica na atualidade, dentro do contexto sociopolítico em que estão imersos.

A psicanálise precisa mostrar sua faceta contemporânea, mais ainda, precisa mostrar o nosso fazer clínico, diante de tantas mudanças na subjetividade que a cultura ocidental sofreu. Entre os passos que precisamos dar para organizar o pensamento psicanalítico contemporâneo, a fim de que possa acompanhar, por exemplo, as mudanças da sexualidade nos últimos cem anos[14]e no futuro, está a tarefa de separar o que é da ordem da "constituição psíquica" (diferenciação tópica em sistemas regidos por leis e tipos de representação) do que é da ordem da "produção de subjetividade" (modos históricos, sociais e políticos de produção de sujeitos em cada cultura).[15]

Sabemos que a complexidade da temática da construção da identidade de gênero, um assunto tão importante neste momento, ainda está se desemaranhando dos rastros deixados no texto dos três ensaios[16], no qual o senhor deu a entender, no capítulo "A metamorfose na puberdade", que a identidade sexual se articulava com a eleição de objeto, enlaçando, de modo contraditório, heterossexualidade, identidade e superego. O devir da clínica psicanalítica tratou de desmanchar essa associação, mostrando que a presença de um superego bem estruturado nos mais distintos aparelhos psíquicos era completamente independente das eleições homossexuais ou heterossexuais das pessoas. Mesmo assim, professor, no campo teórico-clínico, esse postulado desencadeou consequências nefastas durante muito tempo, quer deixando margem para que algumas correntes teóricas vinculassem a perversão adulta aos transtornos de gênero e à eleição homossexual de objeto, quer ainda deixando-nos despreparados para acompanhar as mais variadas demandas clínicas, como aquelas de pacientes em processos de redesignação sexual[17].

Veja bem, professor, além do imbróglio da era das escolas, ainda temos de fazer um inventário daquilo que caducou após um século de psicanálise e do que segue vigente a respeito dos ordenadores do funcionamento psíquico. Precisamos fazer isso porque o senhor nos ensinou a ter um compromisso com o futuro da psicanálise, a fazer um ensino honesto, em que possamos mostrar não apenas o alcance das propostas psicanalíticas como também as suas limitações. Precisamos fortalecer o estudo de dois conceitos ainda muito frágeis no corpus teórico da psicanálise: o de narcisismo e o de identificação.

Após toda essa explanação, creio que posso resumir o que me preocupa na docência da psicanálise nas universidades brasileiras: a significativa diminuição do tempo dedicado ao estudo da sua obra, pois não há espaço para se estudar justamente os textos mais belos e didáticos ainda hoje produzidos pela psicanálise. Eu não sei se o senhor vai concordar com essa minha preocupação, pode até mesmo contra-argumentar que os institutos de psicanálise vão corrigir esse equívoco didático dos professores universitários. Pode querer me aquietar dizendo que, com o tempo, tudo se ajeitará. Sei que, de fato, a verdade é filha do tempo, mas também sei que a revolução que o senhor fez foi feita por meio do único método capaz de produzir verdades, a investigação científica; e é exatamente nesse terreno, o das pesquisas acadêmicas, que estão dando tão certo para o aprofundamento da teoria psicanalítica, que está a fonte maior da minha angústia. Por mais paradoxal que seja, os nossos candidatos a pesquisadores são cada vez mais jovens e passam pelo processo seletivo antes mesmo de atravessarem a longa jornada de estudos teóricos conduzidos pelas instituições. Vão fazer o seu mestrado num período de dois anos, tempo apertado, pois ainda terão de frequentar aulas de disciplinas que, muitas vezes, pouco vão acrescentar ao seu objeto específico de estudo. E, aí, vem o pior: é imprescindível que o aluno conheça os conceitos fundamentais da psicanálise?- isso será exigido dele, seja qual for a escola do orientador. Quando for se doutorar, terá quatro anos de prazo para produzir uma tese original e que possa, de fato, colocar um tijolo no edifício teórico da psicanálise. Muitas vezes, a falta de conhecimento da metapsicologia freudiana chega a levar ao desespero, tanto o aluno de pós-graduação como o orientador, que, impotente nesse momento, lembra-se de que foi um dos protagonistas do drama.

Tenho sido fiel ao que acredito ser o método correto de transmissão da psicanálise na universidade, e se insisto em sustentar essa agonia é porque tenho um comprometimento interno com aquilo que o senhor nos ensinou como sendo característico do tratamento psicanalítico: "a exigência de sinceridade, a recusa de qualquer subterfúgio e de qualquer compromisso com a hipocrisia"[18]. Porém, temo ficar rouca e, por isso mesmo, preciso dos seus conselhos, antes que a minha voz se cale. Muitas vezes me sinto sozinha nessa apreensão e, por isso, recorro ao senhor, dr. Freud, aquele que teve, como disse Renato Mezan, "a aventura mais solitária e mais arriscada jamais empreendida por um ser humano: a descoberta de seu próprio inconsciente e a formulação das leis que regem não apenas este inconsciente individual, mas também o de todos nós"[19]. Aguardo, ansiosamente, uma resposta. Sei que não espero em vão. Se o senhor, 64 dias antes de deixar Viena para sempre, respondeu a Weissmann, uma pessoa desconhecida, que vivia em uma cidade também desconhecida, em um remoto país, eu também posso esperar uma resposta, pois são gestos grandiosos como esse, de carinho para responder a um desconhecido que espera uma explicação para uma dúvida, ou um aval para seus escritos, que o legitima, a meus olhos, como um professor: o nosso eterno e querido professor Sigmund Freud.

Com respeito e admiração profunda,

 Professora Cassandra França

Universidade Federal de Minas Gerais



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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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