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TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
56/57
Jean Laplanche
ano XXIX - Junho/ Dezembro 2016
230 páginas
capa: Calabi Yau
  
 

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Resumo
Este artigo parte da consideração de que a busca de compreender a especificidade da situação analítica e da transferência que nela se produz foi determinante para a formulação da teoria da sedução generalizada tal como proposta por Jean Laplanche. Apresenta essa articulação no pensamento do autor e sua concepção a respeito da situação psicanalítica e da transferência, assim como a importância que ele confere ao método. Pontua algumas questões não resolvidas na obra e finaliza formulando uma questão sobre o campo transferencial-contratransferencial, a partir de algumas pistas deixadas pelo autor.


Palavras-chave
teoria da sedução generalizada; situação analítica; transferência; método analítico; contratransferência.


Autor(es)
Maria do Carmo Vidigal Meyer Dittmar Dittmar

é psicanalista, membro dos departamentos de Psicanálise e de Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae. Professora do curso psicanálise com crianças e membro do Conselho Editorial da revista Percurso.




Notas
[i] {A ESPECIFICIDADE DA SITUAÇÃO} J. Laplanche, "Breve tratado del inconsciente", in Entre Seducción e inspiración: el hombre, p. 92 - nota 79. Agradeço à Claudia Berliner pelo auxílio no texto das citações, aprimorando-as a partir do texto francês original.

[ii] J. Laplanche, Problemática V - A Tina: a transcendência da transferência.

[iii] J. André, "Editorial - Jean Laplanche", p. 764.

[iv] J. André, op. cit., p. 764.

[v] J. Laplanche, "A pulsão e seu objeto-fonte: seu destino na transferência", p. 80.

[vi] J. Laplanche, A Tina..., p. 4.

[vii] J. Laplanche, op. cit., p. 6.

[viii] J. Laplanche, "Psicanálise e Psicoterapia", p. 260.

[ix] J. Laplanche, "Breve tratado...", p. 91.

[x] J. Laplanche, "Três acepções da palavra inconsciente no âmbito da teoria da sedução generalizada", p.194. Consi

[xi] Laplanche, "Três acepções...", p. 195.

[xii] Representação-coisa, objeto-fonte da pulsão, significante

[xiii] Para Laplanche, as formações de compromisso não têm

[xiv] J. Laplanche, A Tina..., p. XII.

[xv] J. Laplanche, op. cit., p. XII.

[xvi] J. Laplanche, op. cit., p. 18.

[xvii] J. Laplanche, "Metas del proceso analítico", p. 193.

[xviii] Para dar maior consistência ao texto, optamos por traduzir refusement por renúncia sempre que se referir à renúncia ao saber, e manter recusa quando se referir à exclusão do adaptativo.

[xix] J. Laplanche, Novos fundamentos para a psicanálise, p. 170.

[xx] J. Laplanche, "El Psicoanálisis como anti- hermenéutica", p. 209.

[xxi] J. Laplanche, Novos fundamentos..., p. 171.

[xxii] J. Laplanche, "De la transferencia: su provocación por el analista", p. 181.

[xxiii] Lösung, termo de difícil tradução, tanto em francês como em português: análise, resolução e dissolução. J. Laplanche, op. cit., p. 185.

[xxiv] S. Freud, "Psicoanalisis y teoria de la libido (Dos artículos de Enciclopedia)", p. 2661.

[xxv] J. Laplanche, "Psicanálise e Psicoterapia", p. 263.

[xxvi] J. Laplanche, op. cit., p. 264.

[xxvii] J . Laplanche, "Contracorrente", p. 99.

[xxviii] J . Laplanche, op. cit., p. 99.

[xxix] J . Laplanche, op. cit., p. 99.

[xxx] J . Laplanche, op. cit., p. 98.

[xxxi] A referência ao eu, neste artigo, será sempre ao eu como instância, tal como definido por Freud na segunda tópica.

[xxxii] J. Laplanche, "Metas del proceso... ", p. 195.

[xxxiii] J. Laplanche, "Sublimation et/ou inspiration", p. 316. Tradução livre de Luis Claudio Figueiredo. Aproveito para agradecer sua leitura arguta e generosa.

[xxxiv] Imagem utilizada por Freud em "Observaciones sobre el amor de transferência".

[xxxv] J. Laplanche, "De la transferencia...", p. 174.

[xxxvi] J. Laplanche, "Intervenção num debate", p. 217.

[xxxvii] J. Laplanche, op. cit., p. 217.



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Abstract
This article is based on the consideration that the search to understand the specificity of the analytic situation and of the transfer that it produces was crucial for the formulation of the theory of generalized seduction, as proposed by Jean Laplanche. It presents this articulation with the line of thought of the author and his conception regarding the psychoanalytic situation and the transfer, as well as the importance that he grants to the method. It highlights some unresolved questions in the work of the author and then finishes by formulating a question regarding the transferential-countertransferential field, based on some clues left by the author.


Keywords
theory of generalized seduction; analytic situation; transfer; analytical method; countertransference.

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 TEXTO

A especificidade da situação psicanalítica no pensamento de Jean Laplanche

The specificity of the psychoanalytic situation according to Jean Laplanche
Maria do Carmo Vidigal Meyer Dittmar Dittmar

A teoria da sedução não é uma língua de leitura, e sim uma tentativa de compreender a prática psicanalítica[i].

 

Neste artigo, parto da consideração de que a exigência de articular a metapsicologia à situação psicanalítica e à transferência está intrinsecamente relacionada à teoria da sedução tal como proposta por Jean Laplanche. Apresento aspectos do caminho de construção da imagem da tina, utilizada para circunscrever a especificidade da situação, e demarco a importância da atitude interna do analista em sua instauração. Sigo, então, o autor em sua definição das transferências e da análise como método de destradução, ambas colocadas no centro da tina. Após estabelecer a relação entre teoria da sedução e prática analítica, busco esclarecer em que medida esta teoria não se propõe a ser uma língua de leitura que poderia instrumentalizar uma suposta compreensão psicanalítica dos fenômenos psíquicos, e aprofundo essa ideia apoiando-me na diferença que Laplanche estabelece entre metapsicologia e mito. Além desse esclarecimento, a dimensão mítica permitirá pensar sobre algumas das formas como o eu se apresenta e trabalha na situação analítica e, ao final, apontar uma questão, dentre muitas que se colocam, relativa ao campo transferencial-contratransferencial.

 

Problemáticas V: a situação psicanalítica como tina

É no livro Problemáticas V - A tina: a transcendência da transferência[ii] que podemos entrar em contato com a evolução inicial do pensamento de Laplanche acerca da situação psicanalítica e da transferência. Sobre esse livro, afirma Jacques André: "O volume V das Problématiques [...] desafia sem rodeios o enigma da situação analítica e constitui, acerca da transferência, uma das mais importantes contribuições da psicanálise depois de Freud"[iii]. Acrescenta que, sem que possamos encontrar em toda a obra de Laplanche uma única apresentação clínica, a teoria do tratamento estará sempre presente em sua elaboração, que será marcada a partir de então pela interrogação sobre o que liga e articula a experiência da transferência à situação antropológica fundamental. Para Jacques André, Laplanche abriu "uma pista, cuja exploração deixou aos cuidados dos outros"[iv].

O livro é composto por aulas do curso ministrado na Université Paris VII, entre 13 de novembro de 1979 e 14 de fevereiro de 1984, entremeado por um intervalo de mais de dois anos e meio, entre fevereiro de 1981 e novembro de 1983. Chama atenção que o artigo em que afirma com todas as letras que "a única verdade do apoio é a sedução originária"[v], A pulsão e seu objeto-fonte: seu destino na transferência, é de maio de 1984, meses após o encerramento desse curso. É nesse artigo que Laplanche deixa claro considerar que o apoio tende a permanecer no marco de uma teoria que remete a uma origem endógena do sexual, na qual o sexual emerge do autoconservativo (ou adaptativo), e afirma, em contrapartida, a hipótese da implantação de significantes enigmáticos a partir da relação adulto-criança inicial, o que nos faz pensar que, embora a sedução estivesse presente em seus desenvolvimentos há muito tempo, esse percurso sobre a situação analítica tenha sido decisivo para a maturação da teoria da sedução generalizada.

Durante todo o livro, Laplanche busca circunscrever a especificidade da situação analítica e da transferência que nela se produz, tecendo alguns fios a partir de determinadas temáticas predominantes. Trata-se do conhecido movimento em espiral, característico do pensamento do autor nas Problemáticas. As temáticas que surgem e desaparecem para ressurgir novamente são: o modelo do sonho e as oposições real/fictício, linguagem/não linguagem e adaptação/sexualidade. Vou me deter a acompanhar um aspecto de seu caminho na construção da imagem da tina, utilizada para designar a situação psicanalítica, para então apresentar a concepção de transferência a que ele chega.

Para pensar a situação analítica, Laplanche parte de um pressuposto e de uma pergunta. Pressuposto: se certas elaborações teóricas são verdadeiras (teoria das pulsões, teoria da tópica e da angústia), elas devem achar sua correspondência na prática psicanalítica.

Nosso propósito seria, portanto: em que a prática psicanalítica, na forma mesmo em que se instaura, na forma como se desenvolve - e também naquilo que exclui, pois veremos que isso é fundamental, ilustra, confirma, permite precisar ou retificar o que podemos enunciar, na teoria e na psicopatologia analíticas, sobre o ser humano, sua estrutura e suas motivações; estrutura remetendo à tópica, e motivações, ao pulsional[vi].

Pergunta: em que esta relação inter-humana, "especificamente analítica, se define em face das simples situações e relações da vida cotidiana?"[vii]. Como diferenciar a transferência propriamente analítica de uma transferência de hábitos ou comportamentos?

É então a pergunta sobre a especificidade da situação analítica que dirige seu pensamento, pergunta desdobrada em duas: o que pertence à análise? O que fica fora da análise?

É importante destacar que, ao explicitar a exigência de articular a metapsicologia à prática, Laplanche parte da teoria das pulsões, da teoria da tópica e da angústia. No decorrer desta busca chega à sua teoria da sedução como fundamento da prática analítica e de sua definição de realidade psíquica. Cabe, ainda, apontar que a chamada teoria tradutiva já se anuncia no horizonte do pensamento do autor, sem ainda ser formulada neste Problemáticas V.

Para designar a existência de um traçado entre um dentro e um fora da análise, o autor utiliza, então, a imagem da tina. Ao longo do livro, vemos que tanto a oposição real/desreal (ou fantasístico, ilusório, imaginário) como a oposição linguageiro/não linguageiro, tematizadas por Laplanche, não definem o limite que a tina traça, uma vez que as produções do paciente em análise incluem (e seguem fazendo distinção) os diferentes níveis de realidade, assim como todo o tipo de linguagem, tais como, por exemplo, os jogos e atos das crianças em análise. Já a escuta do analista deve se orientar pelos elementos em torno dos quais gravitam todos esses tipos de produção do paciente, elementos em geral designados como realidade psíquica. A reflexão laplancheana em torno dessas oposições, no entanto, visa mostrar que a noção de realidade psíquica muitas vezes não se diferencia da noção de realidade psicológica ou subjetiva (forma singular como o sujeito vivencia ou apreende determinada realidade), não sendo suficiente para designar a realidade do inconsciente. Para circunscrever a particularidade em psicanálise da noção de realidade psíquica, o autor propõe pensar em um terceiro domínio de realidade: a realidade da mensagem, formulação somente compreensível se articulada à teoria da sedução tal como proposta por ele.

O limite que a tina traça é então proposto por Laplanche como sendo um limite entre o sexual e o não sexual: o limite da análise reafirma e reinstaura a chamada linha do apoio, ou, como ele dirá depois, permite a reabertura da relação originária ao enigma do outro. A situação analítica, aberta ao cotidiano, porém instaurada por esse limite, que exclui os interesses adaptativos, cria um circuito marginal e sexual em seu interior: uma verdadeira produção ou neogênese do sexual. Por isso, Laplanche define a tina analítica como acelerador ou cíclotron de libido.

Voltaremos, mais adiante, à temática da instauração da situação analítica e de suas aberturas, mas antes se faz necessária uma breve apresentação da teoria da sedução, relacionando-a à realidade psíquica, entendida como realidade da mensagem.

A teoria da sedução como fundamento metapsicológico para a situação analítica

... a invenção genial da situação analítica só pode ser bem compreendida se casada com uma concepção da situação antropológica fundamental (adulto-infans) como dissimetria originária, que tem por outro nome a sedução[viii].

Para Laplanche, certas condições reativam o inconsciente sexual conflitivo e desejante. A criança pequena é, para o adulto, uma dessas condições, e das mais importantes, pois reaviva a lembrança de sua própria dependência inicial, de quando ele, adulto, gravitava ao redor do outro. A criança pequena, o bebê, desperta o inconsciente sexual infantil do adulto de quem ela depende, sendo esta a condição de instauração do inconsciente sexual na criança. Outra dessas condições especiais é a situação analítica. O inconsciente que surge das primeiras comunicações se caracteriza por seu fechamento, e se ele "pode ser levado à linguagem e, de modo mais geral, à expressão, isso só pode resultar desse processo complexo que é o tratamento"[ix].

O que é designado como situação antropológica fundamental é a relação adulto-criança, da qual nenhum ser humano pode escapar. Diante de seu desamparo, a condição inicial do ser humano é de abertura ao outro, outro sexual, que é anterior ao sujeito. Para descrever essa relação, Laplanche inclui em seu pensamento a noção de apego, que relaciona à autoconservação freudiana, para dizer que existe uma relação de base não sexual, em que se dá uma comunicação simétrica a partir de montagens adaptativas.

No ser humano, no entanto, o campo da adaptação é praticamente uma abstração, pois no corpo biopsíquico do bebê, vem instalar-se muito rapidamente o sexual a partir das mensagens do adulto comprometidas pelo inconsciente sexual infantil do próprio adulto. Não se trata da instalação da psique no soma, mas da instalação do sexual em um corpo biopsíquico desde as origens, rompendo com o adaptativo e instaurando o campo do pulsional sexual, também biopsíquico. Sexual que para Laplanche inclui a pulsão sexual de morte e a pulsão sexual de vida, equivalendo a pulsão sexual de morte ao desligamento e a pulsão de vida aos movimentos de ligação pulsional e à simbolização.

A comunicação entre adulto e criança do ponto de vista da sexualidade, diferentemente da comunicação interativa adaptativa, ocorre em uma situação assimétrica e tem uma única direção, indo do adulto habitado por um inconsciente sexual em direção à criança, ainda pré-sexual. São então mensagens comprometidas pelo sexual, sendo que este comprometimento é desconhecido pelo próprio adulto que as emite, e que não podem ser captadas pelo bebê em sua totalidade contraditória:

Nela se misturam, por exemplo, no modelo típico da amamentação, amor e ódio, alívio e excitação, leite e seio, seio continente e seio excitado sexualmente, etc. Os códigos inatos ou adquiridos de que o infans dispõe são, então, insuficientes para fazer frente a essa mensagem enigmática. A criança deve recorrer a um novo código, ao mesmo tempo improvisado por ela e buscado nos esquemas fornecidos pelo meio cultural[x].

Não cabe, no contexto deste artigo, entrar em detalhes sobre a teoria tradutiva de Jean Laplanche e sua relação com o recalque originário e constituição do aparelho psíquico, mas cumpre assinalar que as traduções, ou tentativas de tradução, fundam no aparelho psíquico um nível pré-consciente, correspondente à forma em que o sujeito se representa e à sua história. Esta tradução, no entanto, é sempre imperfeita, deixa restos que constituem o inconsciente da criança marcado pelo sexual adulto, mas em descontinuidade com ele:

É evidente que o inconsciente é marcado pelo sexual, já que tem sua origem no comprometimento da mensagem adulta pelo sexual. Mas não é de maneira alguma a cópia do inconsciente adulto, por causa do duplo metabolismo que o sexual sofreu nesse percurso: deformação na mensagem comprometida no adulto e, depois, na criança receptora, trabalho da tradução que remaneja completamente a mensagem implantada[xi].

Desse duplo desconhecimento originário, tanto do adulto como da criança, decorre que o que existe no inconsciente não são mensagens propriamente, mas restos de mensagens[xii], e são irrecuperáveis, pois nunca estiveram capturadas em uma rede que lhes outorgasse sentido. Assim, o campo da realidade psíquica inconsciente, em torno do qual gira a situação analítica, é o que escapou da atribuição de sentido, constituído pelo que não pôde ser traduzido pela criança. O ser humano, então, parte de uma situação inicial de abertura ao outro, mas se constitui em um movimento de fechamento, correlativo à tradução e síntese que instauram, ao mesmo tempo, o inconsciente e o recalque originário, sendo que este fechamento do sistema psíquico se consolida com a constituição do eu como instância, passando a alteridade a ser interna. O intraduzível que vem do outro externo é fundante do outro interno, o inconsciente originário, que se constitui então como quintessência da alteridade. O que é peculiar à situação analítica é a reabertura do inconsciente, em sua dimensão enigmática e sexual, sendo a comunicação na análise movida pela tentativa incessante de cercar esse desconhecimento originário[xiii].

 

A dupla abertura da situação psicanalítica e sua instauração
pelo analista

Para pensar a especificidade da situação analítica, Laplanche utiliza o modelo do sonho, que apresenta o aparelho psíquico em uma condição especial, em que está fechado para o exterior e excitado desde o interior, e o transforma, para conferir à situação analítica uma dupla abertura: uma abertura externa e outra interna. "Sua abertura externa é a conexão tangencial que ela estabelece entre os interesses da vida cotidiana e a produção de energia sexual"[xiv]. Trata-se de pensar a análise como marginal (neben) à vida cotidiana, mas conectada a ela, ocorrendo a produção de um circuito sexual em seu interior, a partir da incidência do que ocorre fora. À diferença do modelo do sonho, o que ocorre no exterior da sessão não está excluído, mas está tangencializado, em especial, pela atitude de recusa do analista aos interesses adaptativos, de forma a instaurar uma situação na qual o que importa seja da ordem da sexualidade, tanto em seus aspectos narcísicos e objetais como parciais e desligados.

Sua abertura interna é a transcendência da transferência. "É a situação analítica que é, ela própria, transferência, reedição, mas também renovação da relação originária em que a criança recebe, do mundo do adulto, mensagens carregadas de um sentido sexual inconsciente"[xv]. Seu único destino é ser ela mesma transferida para fora do tratamento. Com essa formulação, Laplanche responde a uma das questões que mobiliza seu pensamento - o final da análise: "Como desfazer-se daquilo que se contribuiu tão bem para produzir? Essa transferência, como liquidá-la?"[xvi]. Voltaremos ao tema do final de análise no tópico seguinte, mas, antes, faz-se necessário entender como ele pensa a produção da situação analítica pelo analista.

Laplanche propõe três funções do analista e do que ele instaura: responsável pela constância; piloto do método e acompanhante do processo primário; e guardião do enigma e provocador da transferência. Garante da constância e piloto do método são funções correlativas. Para além da importância da constância do enquadre, o que não exclui sua flexibilidade, o mais importante é a presença e as atenções do analista. A situação analítica é um lugar de continência e de manutenção. O holding (Winnicott) é necessário, especialmente porque o método analítico induz um discurso de desligamento - e nesse sentido a imagem da tina analítica como cíclotron de libido coincide com a do sonho, na medida em que favorece o processo primário.

No entanto, a situação analítica difere do sonho porque inclui o outro como alteridade irredutível, e é também função do analista ser guardião do enigma e provocador da transferência: Laplanche fala em neutralidade benevolente, propondo uma concepção criadora da neutralidade, provocadora da dimensão enigmática, o que diferencia a relação analítica de uma relação intersubjetiva, preservando a dissimetria. Trata-se tanto da renúncia a saber sobre a verdade concernente ao bem do outro, quanto também do reconhecimento da impossibilidade de saber sobre si mesmo, sendo a conservação da alteridade interna do analista fundamental para instaurar a renovação da dimensão enigmática da situação originária na transferência. É a dimensão enigmática que constitui o polo de atração das sucessivas traduções do analisando.

Para Laplanche, "essa reinstauração da situação originária se dá principalmente por dois meios: 1) a situação analítica e seu produto, a transferência; 2) a análise, como método de destradução"[xvii].

 

As transferências: transferência em pleno e transferência em oco

Para Laplanche, o ato psicanalítico é a conjunção entre situação e método. O autor entende a situação analítica como radicalmente assimétrica: é a dissimetria infantil que justifica a dissimetria analítica. A busca de ajuda ou resposta diante de seu sofrimento, de seu não saber, reenvia o analisando à situação de desamparo originária, onde o outro sabe. O analista, em posição de suposto saber (Lacan), deve renunciar a saber sobre o outro, e também, especialmente, a saber sobre si mesmo, mantendo a relação enigmática com seu próprio inconsciente. Estas renúncias instauram um oco no interior da análise, produtor da transferência analítica.

Nesse oco, instaurado pelo analista e por sua renúncia ao saber[xviii], o que vem se instalar? Pode vir se instalar um pleno ou um oco. Um pleno é a repetição positiva dos comportamentos, das relações, das imagos infantis. Um oco é também uma repetição, mas onde a relação infantil repetida reencontra seu caráter enigmático e em que as imagos não estão mais totalmente plenas[xix].

Como acabamos de ver, Laplanche desdobra a transferência em dois: transferência em oco e transferência em pleno. A oferta de análise e a atitude interna do analista produzem essa transferência peculiar à análise, denominada transferência em oco, que possibilita a reabertura da relação originária com o enigma e seu portador no interior da análise. O outro, que foi originalmente externo, a conquistar pelos movimentos iniciais de tradução do psiquismo incipiente, foi posteriormente tornado interno pelo recalque, e é a situação de transferência que é capaz de recolocar em jogo a pulsão a traduzir renovada: "o outro se dirige a mim, de maneira enigmática, e eu (bebê - analisante) traduzo"[xx]. Para Laplanche, é a dimensão enigmática da transferência que permite desdobrar a transferência em pleno, fazê-la progredir e, no melhor dos casos, propiciar tanto o tratamento dos enigmas do outro interno (o inconsciente), como, também, a reformulação dos enigmas do outro externo (os pais, os adultos): "[...] é somente a partir do momento em que aparece uma clivagem no âmago das imagos ou das cenas transferidas [...] que a transferência em pleno poderá evoluir para uma transferência em oco e se elaborar[xxi].

Trata-se de uma reabertura, pois o "movimento de constituição do sujeito se fez por um fechamento, que é precisamente o recalque, a constituição das instâncias, a colocação do outro no interior e seu encerro sob a forma do inconsciente"[xxii]. Na abertura oferecida pela análise, vai alojar-se o que ficou encerrado: "alojar-se aí para se abrir, mas também para se analisar. Porque o que é novo na análise, com relação à cultura, não é a transferência, é... a análise, quer dizer, a Lösung"[xxiii].

Laplanche não se dedica a pensar as diferentes figurações da transferência em pleno, mas a assinalar que, se houvesse apenas transferência em pleno, nada permitiria sair dela. Se a transferência se reduzisse à repetição, por exemplo, de antigas relações de objeto, tal como ocorre na vida cotidiana, o que permitiria pensá-la no interior da análise? E como a situação analítica poderia ser finalizada?

Em A Tina, Laplanche aborda um período da história do conceito e trabalha sobre algumas concepções de transferência. Estas, ao privilegiarem em sua definição a dimensão do ilusório (Lagache) ou da regressão ao infantil (Macalpine), levam a pensar no final de análise, ou como retificação do imaginário pelo real, ou como adaptação à realidade, sendo o parâmetro maior, ora a relação com o analista, que serviria como medida da realidade - eu não sou quem você pensa que eu sou -, ora uma evolução maturativa, que levaria a uma relação mais discriminada com a alteridade. Em "Da Transferência: sua provocação pelo analista", Laplanche considera que predomina (França, 1991) a análise em transferência, no lugar da análise da transferência, a qual supõe uma transferência de base, como meio mesmo da análise. Nesse sentido, a interpretação de um movimento transferencial não visa atacá-lo como defesa ou resolvê-lo, pois dissolver a transferência seria cortar o galho no qual se está sentado. Interpretar a transferência visa ajudá-la a evoluir e progredir para ser elaborada. No entanto, diz ele, a questão do final da análise não estava suficientemente resolvida.

É, então, na medida em que o fundamento da transferência é a relação com o enigma, que ele propõe que há dissolução ou resolução da transferência em pleno na transferência em oco, a qual, ao término de uma análise, não se trata de dissolver e nem de fazê-la desaparecer de forma progressiva, mas de que ocorra transferência da relação com o enigma para outros lugares, em especial para a relação com a cultura, seja como produtor, seja como receptor, seja como analista: o enigma pulsiona o artista a comunicar, criando, provocado por um destinatário desconhecido, e interpela o receptor a traduzir a partir de seu próprio inconsciente em contato com a alteridade da obra. A este movimento, Laplanche chama transcendência da transferência: a cultura, tal como a análise, é outro lugar privilegiado, potencialmente capaz de produzir uma reabertura da dimensão da alteridade.

 

A análise como método de destradução

Como dissemos, a situação analítica é excitante, e em torno do enigma se tecem as inúmeras tentativas de tradução do analisando. Ao lado das transferências, é a análise como método de destradução, como meio de acesso ao inconsciente, que Laplanche coloca no centro da tina. A análise se inscreve, assim, como contracorrente da tentativa de tradução e síntese, que é inerente ao ser humano. Mais adiante, volto a essa questão, ao abordar alguns aspectos relacionados à concepção de constituição do eu-instância em seu pensamento. Por ora, sigamos com a prioridade que ele dá ao método.

Para melhor inserir sua concepção, importa dizer que o autor considera que, em qualquer tratamento psicanalítico, existem sempre análise e psicoterapia, ocorrendo uma oscilação entre a síntese psicoterapêutica e o desligamento analítico. No entanto, para Laplanche, como em Freud, há em psicanálise prioridade do método, entendido como "procedimento de investigação de processos psíquicos quase inacessíveis de outra maneira"[xxiv]. É a situação assimétrica, que instaura a transferência peculiar à análise, que também torna possível o método, o qual é denominado por ele de método associativo-dissociativo. Método que tem como base a associação livre do paciente e, do lado do analista, o que importa é um nivelamento metodológico ou escuta em um mesmo plano, que tem por finalidade desligar, destraduzir, desestabilizar conjuntos coerentes, de forma a permitir o surgimento de novo material. Consequentemente, diferencia o ato psicanalítico das inúmeras formas através das quais, em uma análise, com ajuda maior ou menor do analista, predominam os movimentos de auto-historização e tradução do sujeito, que são renovados pelo novo material - sendo que essas reescritas são tentativas de síntese que compõem o aspecto hermenêutico e psicoterápico de toda análise. Nesse sentido, analista e paciente estão unidos pelo método, mas o verdadeiro hermeneuta é o paciente.

 No que se refere às situações em que as condições de síntese e elaboração do paciente são insuficientes, ou que a indicação para a análise é posta em questão, o autor pergunta: "Temos o direito de ajudar a desligar o que já tem dificuldade de ligação?"[xxv].

No entanto, pondera:

[...] nenhum alienado o é totalmente. Sempre existe nele uma parte neurótica, recalcada [...]. Nesta medida, a análise cuidadosa dessa parte neurótica pode ter um efeito de encadeamento sobre toda a pessoa, inclusive em sua parte psicótica[xxvi].

 

Pode-se criticar o uso da provocativa palavra alienado, mas eis aí uma aposta - e não uma resposta, e um convite a sustentar a especificidade do método psicanalítico, tal como por ele proposto, em todas as situações. E também a encarar muitas questões deixadas em aberto.

 

O eu como hermeneuta:
Gestalt e tradução na tina

Abrimos este texto com a afirmação de Laplanche de que a teoria da sedução não é uma língua de leitura, e sim uma tentativa de compreender a prática analítica. Tendo já estabelecido a intrínseca relação entre teoria da sedução e prática analítica, cabe ainda esclarecer em que medida essa teoria não se propõe a ser uma "língua" de leitura que poderia instrumentalizar uma suposta compreensão psicanalítica de acontecimentos psíquicos. Essa proposição pode ser ampliada e encontrar sua dimensão no pensamento do autor, por meio da diferença que ele estabelece entre metapsicologia e mito. Além desse esclarecimento, a dimensão mítica nos permitirá pensar sobre algumas das formas como o eu se apresenta e trabalha na situação analítica e, ao final, apontar a algumas questões, dentre muitas que se colocam.

Laplanche propõe que a metapsicologia é a teoria do ser humano afetado por um inconsciente. "Teoria, portanto, do inconsciente, de sua natureza, sua gênese, seu retorno, seus efeitos, etc. Assim, primordialmente, teoria do recalque, de seus fracassos, até mesmo de sua ausência (dando acesso, então, à teoria da psicose)"[xxvii]. Difere do "[...] campo dos mitos, esquemas narrativos, modelos de simbolização e historização; alguns, mas não todos, foram descobertos pela psicanálise, como o Édipo"[xxviii]. A criança se utiliza desse campo, denominado de mito-simbólico, em suas tentativas de tradução das mensagens dos adultos, sendo que essas formações têm a finalidade de organizar, ligar e recalcar a sexualidade. Esses esquemas narrativos não são universais e nem atemporais, e podem ser estudados pela psicanálise, "em sua gênese, em sua maior ou menor capacidade de simbolizar; no que constitui seu núcleo (a terceiridade torna o Édipo eficaz?)"[xxix]. Cabe assinalar que, ao incluir o Édipo, e também a castração, dentre esses esquemas narrativos, afirmando sua contingência e seu lugar como organizadores psíquicos historicamente condicionados, Laplanche deixa abertas interrogações sobre o secundariamente recalcado e sua relação com a constituição do sujeito, não os considerando como núcleo do inconsciente originário.

Penso que, em um momento histórico como o atual, marcado pela transitoriedade, no qual "os códigos (ou ideologias) circulam, universalizam-se e ficam obsoletos cada vez mais rápido"[xxx], a perspectiva indicada, de estudar e descobrir novos esquemas narrativos, instiga a trabalhar nessa direção, na interface da clínica e teoria psicanalíticas com outras áreas do conhecimento. No entanto, a teoria da sedução não segue por esse caminho, situa-se no âmbito da metapsicologia, não é uma teoria que fornece esquemas interpretativos, sendo inapta a ser utilizada como língua de leitura. Visa a designar, ao tomar como ponto de partida a situação antropológica fundamental, um fenômeno universal, inerente ao humano. Ela não é uma hermenêutica, muito embora se proponha a situar o lugar da hermenêutica e explicar a função dos mitos, tanto no ser humano como na situação analítica. O lugar da hermenêutica no ser humano é o eu-instância[xxxi], porquanto este é o lugar privilegiado de síntese e ligação pulsional no aparelho psíquico. É função das formações mito-simbólicas oferecer códigos de compreensão que estão no universo social. O mito-simbólico coletivo fornece à criança os meios com os quais ela procura tratar as mensagens que lhe vêm do outro, e dele deriva a construção da novela particular do sujeito. Em relação a esta, a intervenção do analista visa desconstruir, apontar suas contradições internas ou ainda explicitar sua intriga, se diferenciando do exercício do método stricto sensu, e até mesmo se contrapondo a ele.

Na tina analítica, como já afirmamos, ocorre uma oscilação entre a síntese psicoterapêutica e o desligamento analítico, e toda síntese, ainda que proposta pelo analista e advinda de esquemas propostos pela psicanálise, é uma ajuda à ligação psíquica e à simbolização, e nesse sentido é uma ajuda ao recalque e à defesa. Embora essas sínteses sejam sempre defensivas, elas podem ser mais rígidas ou mais porosas e flexíveis. Na medida em que a tendência do eu é sempre de fechamento e síntese, é o método que possibilita o surgimento de novo material, favorecendo que o movimento de elaboração na análise caminhe em direção a traduções cada vez mais abrangentes e mais próximas do recalcado, ainda que sempre em defasagem em relação ao inconsciente inatingível.

Para Laplanche, são duas as vias pelas quais o aparelho psíquico se fecha e o eu-instância se constitui. Uma delas se dá através da busca de traduzir e tratar os elementos enigmáticos provenientes das mensagens recebidas. A outra via é a identificação narcisista: "O eu não é uma instância definitiva, está construído contra uma alteridade fundamental, por meio da atribuição de sentido (traduções) e das identificações"[xxxii]. Penso que essa afirmação, que remete aos movimentos constituintes do eu, está relacionada à sua proposição de que a ação sintética do eu se dá segundo dois tipos, que são muito diferentes, embora ambos estejam sempre presentes no eu e se relacionem: um tipo que se efetua graças a conexões simbólicas complexas, de acordo com o já apresentado modelo tradutivo, e outro tipo, que ele chama de gestáltico. Este segundo tipo corresponde a uma ligação eminentemente narcisista e, nas palavras do autor, mais tosca, na qual o eu unifica o diverso sem mediações. Sobre a articulação entre essas duas formas por meio das quais o eu exerce a síntese, diz Laplanche: "Não há Aníbal nem identificação a Aníbal sem a história de Aníbal, mas não há história de Aníbal sem que o eu venha especularmente recortar e extrair para si o personagem no seio de sua história"[xxxiii].

Ora, o conceito de identificação, inclusive por remeter a esse aspecto tosco, pouco elaborado psiquicamente, aponta para as formas em que, creio poder dizer, os sujeitos encarnam os mitos, em que somos e agimos nossas traduções. Essa articulação é clinicamente fértil, uma vez que, sempre que é possível colocar em questão traços identificatórios aos quais o sujeito se encontra aderido, vemos se abrir um campo de múltiplas possibilidades de historização, ou, no dizer de Laplanche, de novas traduções, que possibilitam remanejamentos subjetivos e libidinais. Além disso, em suas múltiplas facetas, o conceito de identificação é interessante para pensar nas figurações da transferência em pleno, tanto quando o fogo invade a cena[xxxiv], quanto nas pequenas infiltrações que ocorrem quando o processo elaborativo na análise está em curso, permeando-o de sutis movimentos transferenciais em pleno.

Como identificação narcisista, o conceito aponta também à situação originária, como contraface da sedução, uma vez que está na origem do eu. No entanto, curiosamente, Laplanche não desdobra sua reflexão sobre o lugar da sexualidade do outro na constituição do narcisismo da criança. O tema é complexo e seu desenvolvimento ficará para outra oportunidade, mas vale assinalar que essa questão remete a uma diferença importante entre o pensamento de Laplanche e o de Silva Bleichmar, sendo que a autora prefere falar em dupla função materna e narcisismo transvazante. Para ela, é a partir de seu aparelho psíquico clivado entre inconsciente e eu narciscista, que a mãe se aproxima da criança. Bleichmar, assim, atribui ao investimento amoroso do adulto (sexualidade ligada e inibida quanto à meta) um papel decisivo nas ligações pulsionais que serão tornadas possíveis para a criança e estarão na base da formação do eu, sendo esse investimento amoroso a contrapartida da sedução originária. A meu ver, o desenvolvimento dessa discussão também aponta a consequências clínicas importantes para a situação psicanalítica e a transferência, em especial nas situações em que a aplicação do método se encontra limitada, ou mesmo impossibilitada, diante das condições psíquicas do paciente.

 

E a contratransferência?

Encerro com uma breve menção à contratransferência no pensamento de Laplanche e formulo uma questão em relação ao campo transferencial-contratransferencial.

Laplanche pensa que a contratransferência do analista não é capaz de informar sobre o inconsciente do paciente. Como vimos, ele é enfático a respeito da assimetria analítica e das renúncias do analista, particularmente no que se refere à renúncia a pensar que sabe sobre o próprio inconsciente. Nesse sentido, para ele, as reações subjetivas do analista (afetos, pensamentos e atos) não dão acesso ao seu próprio inconsciente, que permanece inacessível, e nem ao inconsciente do paciente. Não há reciprocidade entre analista e paciente, a relação analítica não é uma relação intersubjetiva entre pares, e nem há possibilidade alguma de que, por meio de seu pensamento pré-consciente, o analista tenha acesso à dimensão inconsciente, seja de si mesmo, seja do paciente.

Sua insistência na dissimetria analítica é sua insistência na alteridade interna e externa, no outro do outro e no outro de si mesmo. Trata-se da realidade do inconsciente: o outro é outro, "é outro que eu porque é outro que ele mesmo. A alteridade externa reenvia à alteridade interna"[xxxv]. Para ele, a contratransferência é a relação particular do analista com seu inconsciente irredutível.

No que se refere à transferência-contratransferência, Laplanche é claro ao afirmar sua discordância em relação à suposição de uma paridade na dinâmica transferencial-contratransferencial, por considerar que certas concepções (não fica claro a quais se refere) introduzem uma suposição de paridade simétrica entre analista e paciente, renegando a assimetria. No entanto, ao se pronunciar sobre a posição de Daniel Widlöcher, que propõe uma "associatividade compartilhada, (que) implica a contratransferência"[xxxvi], Laplanche diz estar disposto a aceitar que exista um campo de produções psíquicas ou associações entre analisando e analista, e que esse campo possa ser explorado. Porém, considera que se trata de um acompanhamento pré-consciente e que este nem sempre anda pari passu com a possibilidade de implementação do método, ou da regra da atenção igualmente suspensa - regra que destaca e acentua "o que o paciente tenderia a manter à sombra, estando também, em suma, a serviço do desligamento e nem sempre correspondendo a dois processos de pensamento bem sintonizados"[xxxvii].

Esta última observação merece destaque. Seria possível articular a seu pensamento a importância de que as atenções do analista contemplem tanto uma escuta dirigida às produções do paciente e à implementação do método, quanto também a escuta atenta de movimentos transferenciais e contratransferenciais, desde que mantida a assimetria analítica? A que campo de fenômenos psíquicos esses movimentos corresponderiam e quais os ganhos clínicos que daí decorrem? Minha inclinação é pensar que o conceito de identificação, articulado aos de transferência em pleno e transferência em oco, pode indicar um caminho na investigação dessas perguntas.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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